Guminha chamou a mãe. Chamou com um jeito e uma voz que a mãe conhecia bem: uma voz de "quero colo" misturada com "já cresci e aguento o tranco". A mãe secou as mãos no guardanapo de cozinha, deixou a louça esperando e foi ouvir seu filho mais velho.
-Fale, meu filho.
-Mãe, decidi. Tô aqui com um nó na garganta, quase chorando, então vou falar de uma vez.
Suspirou fundo, abraçou a mãe e então disse:
- Vou mudar.
E saiu para o quintal.
Foi chorar onde ninguém via, sentindo o peso e a leveza de qualquer grande decisão tomada.
Chorou a saudade antecipada do jeito da professora dar aula.
Chorou a falta que sentiria dos amigos da sala de aula. Da saudade de poder dar uma olhadinha pra Lilil. De ir com o irmão para a escola, rindo e brincando pelo caminho...de ver o raio de Sol que ia chegando pertinho do pé dele quando ia chegando a hora do recreio...até que a mãe foi sentar com ele.
Ficaram os dois ali, no quentinho da tarde, cúmplices de uma nova direção da vida do menino. Certamente o Boca sentiria falta de ter o irmão por perto e precisariam conversar com ele.
-Filho, amanhã cedo vou até a escola e vejo toda a papelada da mudança. Você ainda vai poder ir alguns dias para se despedir da turma. Você foi muito corajoso.
- Isso é ter coragem, mãe?
- Também. Coragem é muita coisa e uma delas é se lançar num futuro desconhecido. É deixar o que sabemos como é de lado para aprendermos a ver a vida de um outro jeito.
-Vou ter saudade dos meus amigos, mãe...
- Amigos são amigos para sempre, quando são de verdade. E, pensa bem: você vai ganhar 29 novos amigos. 29 é muita gente!!!
-É mãe! E tem a professora!
-Isso, são 30 amigos então!
E assim animado com o novo, seguiram conversando até a Lua dar psiu para eles. Entraram abraçados e então se deram conta que a mudança de turma aconteceria um dia depois do aniversário do Guminha.
- Vou comemorar com a minha turma de agora e depois, de presente, vou ganhar outra turma.
-Sim, filho. Uma etapa que se conclui, um monte de possibilidades. Coragem, meu filho, coragem.
