quarta-feira, 25 de abril de 2012


Olha só!
Tem música com AÇAÍ sim!
"Açaí" - Djavan
Ponto para o Boca!

Guminha foi mal na prova


Que a  matemática é uma senhora cheia de problemas todo mundo sabe. O Guminha também soube, de um jeito muito ruim: foi mal na prova. Não mal, péssimo. Quando a professora o chamou e entregou a prova, os olhos dele quase saíram do lugar e ele ficou olhando aquele zero bem redondo no lugar da nota dele, pensando talvez se não faltaria o número um na frente. Não faltava não, a prova estava cheia de xizinhos nas respostas do Guminha. 
Na volta para o lugar, ele disfarçou. Sempre tem um chato na sala pra ficar questionando quanto as pessoas tiram nas provas. Dentro dele tudo quebrado, ele se achando uma pessoa incapaz. A professora avisou que fariam revisão e teriam recuperação na semana seguinte. Na cabeça do Guminha, no lugar de pensar em anotar isso na agenda, passavam pensamentos bem cinzas: não sabia nada, era burro e seria enganado no mercado na hora do troco até o dia de sua morte, quando todos pensariam "coitado do Guminha, era tão burrinho". Bateu o sinal, o Boca o esperava na porta da sala, super animado para andarem de skate.
A pista em que os meninos andavam estava cheia, todo mundo impressionado com as novas manobras do menino novo no bairro. O Guminha até tentou se interessar, mas só via números e pensava coisa ruim. Ainda bem que o Boca estava entretido e nem percebeu. Difícil demais disfarçar um sentimento desse para o irmão tão querido.
À noite, antes de dormir, eles sempre brincavam de advinha a música através de uma palavra.
-A palavra é açaí.
-Açaí nem existe música Boca!
-Existe que eu ouvi no trailler do pai.
-Você tá inventando!
-Nem tô, vai...
-Não sei não, você vai inventar uma música só para eu perder ponto.
- Ai Guminha, vai...vou começar a contar o tempo...1,2
-Chega Boca, não quero mais brincar.
- Você tá muito mal humorado.Tá estranho. Pode falar.
É. Não tinha jeito. Ia ter que falar. Anos depois o Guminha soube que aquele gosto ruim na boca e a vontade de chorar escondido chamava ANGÚSTIA. Eis algo que nenhum menino, de idade nenhuma, deveria sentir.
-Boca, eu tirei zero de matemática. Sou burro.
-Ah, sabia que você tava estranho. Ô irmão, não confia em mim mais?
-Confio, mas eu tava com vergonha.
-Primeiro que você não é burro. Segundo que é só estudar. Matemática não muda nunca, 2+2=4 desde sempre. Eu vou te ajudar.
O coração do Boca é o maior lugar do mundo, tipo um sofá macio e quente que dá vontade de ficar para sempre. Combinaram que no dia seguinte ele ia sentar bem quieto, não ia ficar mexendo nas coisas do estojo nem mandar bilhetinho pra Lili e ia prestar atenção na aula e na explicação toda. Embora fosse mais novo, o Boca era bem moço para essas coisas de prestar atenção e ficar quieto. Aí era fazer um monte de exercícios  e parar de pensar cinza.
Chegou o dia da prova. Aquele gelinho de medo escorregou pra dentro da barriguinha do Guminha. Sentou no lugar, recebeu as folhas de exercício e pensou nos dias que o irmão deixou de brincar para ajudá-lo a estudar. Pensou que era maior que aquilo. Então resolveu, problema por problema, exercício por exercício. No final, quando entregou a prova para a professora, ela avisou:
-Senta que eu já vou corrigir sua prova.
Quando ela entregou o resultado, veio acompanhada de um sorriso da professora.
-Nossa, que recuperada que você deu! Parabéns!
Dessa vez tudo deu certo: tinha o um na frente do zero. 

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Guminha e as pessoas bacanas

Tem coisas que trazem um estado de felicidade quase imediata na vida da gente: dormir com chuvinha boa, cheiro de bolo no forno quente, achar dinheiro no bolso, o elevador estar parado no seu andar quando você está com pressa...outras coisas trazem um estado de compreensão da felicidade, mas a gente demora mais tempo para notar. Muitas vezes não são coisas e sim pessoas que nos trazem essa compreensão. E tem horas que nem notamos que essas pessoas existem.
Com o Guminha foi assim também. Ele e o Boca vão juntos à escola, aprontam juntos, ficam juntos durante o intervalo, só estudam em turmas diferentes porque o Guminha é um ano mais velho. De todo o resto são grudados. Um dia na escola deles estava a maior conversa: o zelador ia embora. Na verdade nem era conversa, era mais uma comemoração: a maioria dos alunos não gostava do seu Antônio. O Guminha também achou que não gostava e até ficou feliz com a notícia. Ele ia se aposentar e ia embora para outra cidade, eram os últimos dias do seu Antônio na escola. Para os alunos isso significava que poderiam novamente andar no muro sem ter o seu Antônio para mandá-los descer; poderiam grudar chicletes no muro sem ter seu Antônio para mandá-los tirar; iam poder zanzar no caminho do banheiro ou do bebedouro sem ter que os orientasse a voltar logo para a sala...era uma ideia muito próxima do que seria o Paraíso.
Naquele dia de comemoração escondidinha o Boca se machucou no jogo de futebol: levou um carrinho tão feio que se feriu todo, a perna toda ralada. Mesmo sendo todo habilidoso para o jogo, O Boca abriu o berreiro e o Guminha logo foi cuidar do irmão. Seu Antônio estava lá, providenciando tirar o Boca do meio de todo mundo, que é o último lugar do mundo que se quer estar quando estamos chorando bem forte. Foram todos para a sala da enfermaria, seu Antônio, Guminha e o Boca. Seu Antônio lavou o machucado, colocou gaze, esparadrapo e até enfaixou pra ficar mais legal, do jeito que os meninos pediram. Já não tinha mais choro, o Boca estava quase feliz com aquele troféu na perna, bem coisa de menino!
Enquanto o Boca foi para a sala dele guardar o material, o Guminha ficou por ali, para ligarem para dona Maria vir buscar o filho mais novo. Nesse tempo ele teve uma conversa tão especial com o seu Antônio que ele nem acreditava que o tempo fosse tão curto...seu Antônio foi contando coisas desde quando os meninos entraram naquela escola: lembrou do primeiro dia de aula do Guminha, ele não queria se separar do Boca de jeito nenhum! Lembrou dele pedindo para seu Antônio amarrar o tênis, pois ele não sabia ainda...contou de um dia que teve uma chuvona bem forte e todo mundo ficou assustado porque um pedaço da quadra estava cheio de água e o seu Antônio contou histórias de quando ele era criança para aquietar todo mundo...contou de quando o Boca entrou na escola, todo bonitinho de uniforme e cabelo com gel, trazido pelo Guminha: cada um com uma mochila de rodinha de um personagem, felizes com seus lanchinhos preparados pela dona Linda! Contou tanta coisa e falou tanto de como ele admirava a amizade e a parceria dos irmãos e de cada detalhe especial que o cotidiano encobre que o Guminha se arrependeu de ter meio que comemorado a ida do seu Antônio.
Agora ele sentia uma saudade antecipada, uma coisa esquisita, meio que uma saudade de tudo o que ele viveu com seu Antônio e nem tinha percebido:
- Seu Antônio: eu não quero que o senhor vá embora.
Era sincero. Guminha não queria. Por meios que ele não entendia ainda, uma amizade verdadeira existia entre aquele senhor e todos os alunos, mesmo que eles não notassem ou sentissem ainda.
Dizem que para cada coisa ruim existem três coisas boas: o Boca se machucou, o que era ruim, mas logo de cara ele ganhou um curativo todo estiloso, eles conversaram todas aquelas coisas legais e o Guminha e o seu Antônio se tornaram bons amigos.
Ele entendeu que o seu Antônio tinha tido um papel bem importante na vida dos dois irmãos, participado de momentos inesquecíveis. As pessoas surgem na nossa vida e mesmo por caminhos tortos ajudam a gente a crescer.




terça-feira, 3 de abril de 2012

Guminha e o mar

Teve uma vez que uma amiga da dona Maria convidou a ela e aos meninos para passarem o final de semana na praia. Claro que a dona Maria, bem festeira, aceitou. Preparou algumas coisas gostosas, pintou as unhas do pé bem coloridas, comprou uma sunguinha nova para cada filho, protetor solar e...uma prancha!!O Guminha e o Boca adoraram a surpresa e logo transformaram a sala numa praia de mentira: o sofá era a areia e o tapete era o mar e ficaram brincando até a hora que a mãe começou a contar até três, como todas as mães que perderam um pedacinho da paciência fazem. 

Hora de partir!

-Metade da prancha para cada um.Mães ensinam matemática aplicada: como dividir o indivisível?

Passaram a viagem toda bolando um jeito de entender como poderiam partilhar o brinquedo novo, mas não teve jeito, teriam que brincar juntos, o tempo todo. Sim, porque nenhum deles ia querer largar daquela joia preciosa esculpida em isopor.
Quando chegaram lá, mal deixaram as bagagens e se mandaram para a areia. A praia era sossegada o suficiente para permitir que os meninos corressem livres, sob a vigilância da mãe e da amiga dela.
O Guminha e o Boca correram para aquele mar imenso, os dois tão pequenos diante da imensidão, mal entraram no mar e  brrrrrrrr...aquele arrepio que gela a alma quando a gente entra, mas que dá mais energia!Isso foi só nos primeiros instantes, logo tudo era calor e festa. Eles não paravam um minuto! Aprender a se equilibrar ali era um desafio novo e impensável até então. Criaram umas regras para que cada um tivesse o mesmo número de chances de brincar.  
- Se vier onda gorda não vale.
- Se a mãe chamar e a gente se distrair também não.
Como medir a gordura da onda? E como ouvir a mãe? Mas eles sabiam, se entendiam e não tiveram nenhum problema.
Esqueceram de comer, esqueceram de jogar futebol, de pedir qualquer coisa...a hora voava! A Eram os dois a tentar e tentar, até ficarem enrugadinhos de tanto ficarem na água e o medo da mãe chamar pra ir embora misturado com a certeza de estar cada vez mais perto de conseguirem!
Aí aconteceu...o Guminha olhou bem firme, segurou forte a prancha, venceu as marolas e pronto. Estava no lugar certo. Então ela veio, grandiosa e azul. A onda perfeita. Ele então deu duas braçadas e num salto se colocou em pé, como nos filmes, como nos clipes, como nas séries. Ele finalmente conseguiu!!!
Ele gritava, dividindo a felicidade do feito com seu irmão. 
Aeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeee irmão! Me ensina!!! Você sabe!
Claro que ele ia ensinar. Mas ele ainda não entedia direito como sabia. O sal nos lábios não era nada perto do sabor de ter se superado.
Como um replay mágico, o Boca também conseguiu o que eles passaram o dia todo treinando e tentando, fazendo com que o Guminha ficasse ainda mais feliz com aquele dia ali, no mar.
Correram contar para a mãe, que vibrou com eles
-Mãe, eu queria ser maior, para essa alegria poder caber em mim!
- Você é grande, Guminha! Você é imenso!!!


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