Que a matemática é uma senhora cheia de problemas todo mundo sabe. O Guminha também soube, de um jeito muito ruim: foi mal na prova. Não mal, péssimo. Quando a professora o chamou e entregou a prova, os olhos dele quase saíram do lugar e ele ficou olhando aquele zero bem redondo no lugar da nota dele, pensando talvez se não faltaria o número um na frente. Não faltava não, a prova estava cheia de xizinhos nas respostas do Guminha.
Na volta para o lugar, ele disfarçou. Sempre tem um chato na sala pra ficar questionando quanto as pessoas tiram nas provas. Dentro dele tudo quebrado, ele se achando uma pessoa incapaz. A professora avisou que fariam revisão e teriam recuperação na semana seguinte. Na cabeça do Guminha, no lugar de pensar em anotar isso na agenda, passavam pensamentos bem cinzas: não sabia nada, era burro e seria enganado no mercado na hora do troco até o dia de sua morte, quando todos pensariam "coitado do Guminha, era tão burrinho". Bateu o sinal, o Boca o esperava na porta da sala, super animado para andarem de skate.
A pista em que os meninos andavam estava cheia, todo mundo impressionado com as novas manobras do menino novo no bairro. O Guminha até tentou se interessar, mas só via números e pensava coisa ruim. Ainda bem que o Boca estava entretido e nem percebeu. Difícil demais disfarçar um sentimento desse para o irmão tão querido.
À noite, antes de dormir, eles sempre brincavam de advinha a música através de uma palavra.
-A palavra é açaí.
-Açaí nem existe música Boca!
-Existe que eu ouvi no trailler do pai.
-Você tá inventando!
-Nem tô, vai...
-Não sei não, você vai inventar uma música só para eu perder ponto.
- Ai Guminha, vai...vou começar a contar o tempo...1,2
-Chega Boca, não quero mais brincar.
- Você tá muito mal humorado.Tá estranho. Pode falar.
É. Não tinha jeito. Ia ter que falar. Anos depois o Guminha soube que aquele gosto ruim na boca e a vontade de chorar escondido chamava ANGÚSTIA. Eis algo que nenhum menino, de idade nenhuma, deveria sentir.
-Boca, eu tirei zero de matemática. Sou burro.
-Ah, sabia que você tava estranho. Ô irmão, não confia em mim mais?
-Confio, mas eu tava com vergonha.
-Primeiro que você não é burro. Segundo que é só estudar. Matemática não muda nunca, 2+2=4 desde sempre. Eu vou te ajudar.
O coração do Boca é o maior lugar do mundo, tipo um sofá macio e quente que dá vontade de ficar para sempre. Combinaram que no dia seguinte ele ia sentar bem quieto, não ia ficar mexendo nas coisas do estojo nem mandar bilhetinho pra Lili e ia prestar atenção na aula e na explicação toda. Embora fosse mais novo, o Boca era bem moço para essas coisas de prestar atenção e ficar quieto. Aí era fazer um monte de exercícios e parar de pensar cinza.
Chegou o dia da prova. Aquele gelinho de medo escorregou pra dentro da barriguinha do Guminha. Sentou no lugar, recebeu as folhas de exercício e pensou nos dias que o irmão deixou de brincar para ajudá-lo a estudar. Pensou que era maior que aquilo. Então resolveu, problema por problema, exercício por exercício. No final, quando entregou a prova para a professora, ela avisou:
-Senta que eu já vou corrigir sua prova.
Quando ela entregou o resultado, veio acompanhada de um sorriso da professora.
-Nossa, que recuperada que você deu! Parabéns!
Dessa vez tudo deu certo: tinha o um na frente do zero.