quarta-feira, 18 de abril de 2012

Guminha e as pessoas bacanas

Tem coisas que trazem um estado de felicidade quase imediata na vida da gente: dormir com chuvinha boa, cheiro de bolo no forno quente, achar dinheiro no bolso, o elevador estar parado no seu andar quando você está com pressa...outras coisas trazem um estado de compreensão da felicidade, mas a gente demora mais tempo para notar. Muitas vezes não são coisas e sim pessoas que nos trazem essa compreensão. E tem horas que nem notamos que essas pessoas existem.
Com o Guminha foi assim também. Ele e o Boca vão juntos à escola, aprontam juntos, ficam juntos durante o intervalo, só estudam em turmas diferentes porque o Guminha é um ano mais velho. De todo o resto são grudados. Um dia na escola deles estava a maior conversa: o zelador ia embora. Na verdade nem era conversa, era mais uma comemoração: a maioria dos alunos não gostava do seu Antônio. O Guminha também achou que não gostava e até ficou feliz com a notícia. Ele ia se aposentar e ia embora para outra cidade, eram os últimos dias do seu Antônio na escola. Para os alunos isso significava que poderiam novamente andar no muro sem ter o seu Antônio para mandá-los descer; poderiam grudar chicletes no muro sem ter seu Antônio para mandá-los tirar; iam poder zanzar no caminho do banheiro ou do bebedouro sem ter que os orientasse a voltar logo para a sala...era uma ideia muito próxima do que seria o Paraíso.
Naquele dia de comemoração escondidinha o Boca se machucou no jogo de futebol: levou um carrinho tão feio que se feriu todo, a perna toda ralada. Mesmo sendo todo habilidoso para o jogo, O Boca abriu o berreiro e o Guminha logo foi cuidar do irmão. Seu Antônio estava lá, providenciando tirar o Boca do meio de todo mundo, que é o último lugar do mundo que se quer estar quando estamos chorando bem forte. Foram todos para a sala da enfermaria, seu Antônio, Guminha e o Boca. Seu Antônio lavou o machucado, colocou gaze, esparadrapo e até enfaixou pra ficar mais legal, do jeito que os meninos pediram. Já não tinha mais choro, o Boca estava quase feliz com aquele troféu na perna, bem coisa de menino!
Enquanto o Boca foi para a sala dele guardar o material, o Guminha ficou por ali, para ligarem para dona Maria vir buscar o filho mais novo. Nesse tempo ele teve uma conversa tão especial com o seu Antônio que ele nem acreditava que o tempo fosse tão curto...seu Antônio foi contando coisas desde quando os meninos entraram naquela escola: lembrou do primeiro dia de aula do Guminha, ele não queria se separar do Boca de jeito nenhum! Lembrou dele pedindo para seu Antônio amarrar o tênis, pois ele não sabia ainda...contou de um dia que teve uma chuvona bem forte e todo mundo ficou assustado porque um pedaço da quadra estava cheio de água e o seu Antônio contou histórias de quando ele era criança para aquietar todo mundo...contou de quando o Boca entrou na escola, todo bonitinho de uniforme e cabelo com gel, trazido pelo Guminha: cada um com uma mochila de rodinha de um personagem, felizes com seus lanchinhos preparados pela dona Linda! Contou tanta coisa e falou tanto de como ele admirava a amizade e a parceria dos irmãos e de cada detalhe especial que o cotidiano encobre que o Guminha se arrependeu de ter meio que comemorado a ida do seu Antônio.
Agora ele sentia uma saudade antecipada, uma coisa esquisita, meio que uma saudade de tudo o que ele viveu com seu Antônio e nem tinha percebido:
- Seu Antônio: eu não quero que o senhor vá embora.
Era sincero. Guminha não queria. Por meios que ele não entendia ainda, uma amizade verdadeira existia entre aquele senhor e todos os alunos, mesmo que eles não notassem ou sentissem ainda.
Dizem que para cada coisa ruim existem três coisas boas: o Boca se machucou, o que era ruim, mas logo de cara ele ganhou um curativo todo estiloso, eles conversaram todas aquelas coisas legais e o Guminha e o seu Antônio se tornaram bons amigos.
Ele entendeu que o seu Antônio tinha tido um papel bem importante na vida dos dois irmãos, participado de momentos inesquecíveis. As pessoas surgem na nossa vida e mesmo por caminhos tortos ajudam a gente a crescer.




Nenhum comentário:

Postar um comentário

Powered By Blogger

Marcadores