terça-feira, 23 de outubro de 2012

Guminha e a prova de História


Dia de prova. A sala toda com os olhos espertos na professora, tentando adivinhar se iria ser fácil ou difícil. Ela, muito tranquila, disse:
-Para quem estudou está fácil. - e sorriu.
Claro que para quem estudou está fácil. E para quem está com a cabeça em outro lugar? Tenso.
-Vamos separar as mesinhas. Quero letra caprichada, organização nas respostas. Confio na capacidade de vocês.
Pronto, agora estava tudo perdido! Além de saber a matéria, tinha que fazer letra bonita! E essa jogada da professora de dizer que confiava, dava até uma dor no estômago!
Guminha recebeu o teste dele, colocou nome, número, data e a caneta paralisou. Nada. Lia as questões e nenhuma delas parecia fazer sentido. Lembrava vagamente dos nomes ali escritos, das batalhas e alguns lugares mencionados, mas responder qualquer pergunta era tarefa impossível. Fez força, tentou relembrar das aulas...não era possível, tinha estudado! 
Pelo canto do olho via todo mundo entregando a prova, o tempo passando e ele ali, sem conseguir fazer nadinha. Sensação horrível, que só piorou quando ele entregou a prova na mão da professora e explicou o que havia acontecido. 
- Calma, semana que vem tem outra. Tenho certeza que você sabe esse conteúdo. Te deu um branco, não foi?
Sim, era uma coisa ruim, tentar lembrar e não conseguir. 
À tarde os meninos da turma e a Lili foram na casa dele, fariam um trabalho em grupo. Nem isso animou muito o Guminha, que estava com medo de ser esquecido para sempre.
A tarde passou rápido e no fim do trabalho eles podiam brincar, antes de ir embora. Chegou dona Linda trazendo bolo para a molecada se lambuzar de cobertura de chocolate e algo surpreendente! A câmera fotográfica dela!
Essa história aconteceu num tempo em que foto era raridade: quando alguém fazia aniversário, comprava um filme e colocava na máquina. Aí economizava fotos, porque os filmes eram de 12 ou 24 poses, só quem era muito privilegiado comprava filme de 36 quadros. No aniversário era sempre assim: foto da mesa pronta, foto do aniversariante com os pais, foto do aniversariante com os padrinhos e umas fotos da hora do parabéns. Se alguém saia desfavorecido, mastigando ou com a cara torta, só ia saber na hora que revelava o filme, o que às vezes demorava um pouco. Aí colocava as fotos num álbum e saia mostrando pessoalmente, porque rede social era coisa inimaginável.
Aconteceu que a dona Linda tinha feito aniversário e embora não fosse mais criança, quis tirar fotos do jeitinho que todo mundo tira e agora precisava acabar o filme para poder mandar revelá-lo.
-Criançada, vocês querem tirar fotos?
-Ah vó, tô chato hoje - respondeu o Guminha. - Tô com medo de ficar esquecido para sempre.
-Ah Guminha, você tão novo? Não tem como! Eu que estou mais velha poderia ter esse medinho.
-E não tem? - questionou o Boca
-Não. Eu tenho as minhas fotos que me recordam de tantas coisas boas. Tenho amigos que me contam as histórias que nós vivemos e um ajuda o outro a lembrar se faltar um pedacinho. A nossa história a gente escreve todo dia, não tem como dar branco. E se der, a gente pinta de colorido.



terça-feira, 16 de outubro de 2012

Guminha e a excursão da escola


Nada além do normal naquele dia incomum, tinha feito tanta coisa durante a semana que nem viu os dias passarem e a a data da excursão chegar no calendário:era no dia seguinte, de manhãzinha. 
Nem tinha lembrado de pedir pra mãe pra comprar coisas gostosas para comer durante o passeio, mas como mãe está sempre a frente ela já havia preparado  um verdadeiro banquete dos sonhos para o menino, com direito a bolo de chocolate e tudo..
Os dias tinham passado rápido desde que a professora entregou o bilhete da excursão para a turma, as horas que antecediam o passeio davam impressão de demorar mais do que fim de jogo quando seu time tá ganhando por um gol de diferença e tá tocando um sufoco do time adversário!
Arrumou a mochila,arrumou de novo, de novo, de novo, planejou o passo a passo  e nada da hora passar!
Foi conversar com o Boca, que iria com a sala dele no mesmo ônibus da sala do Guminha, pra ver o que ele esperava do passeio e notou que o irmão estava na mesma sintonia que ele.. Aquele friozinho na barriga, aquela curiosidade de como ia ser, os rituais pro Sol acompanhar a viagem, pra chuva ficar bem longe, pro vento ser aquele que refresca não o que esfria... quis ligar para todos os amigos, mas a dona Maria não deixou: pensa ele conversando todos os detalhes do passeio com a turma toda?
O bacana destas excursões é ver pessoas tão diferentes fazendo coisas iguais juntas, se divertindo juntas com coisas sem sentido, rindo de coisas sem tanta graça, brincando  de coisas que você não quer brincar só pra todo mundo brincar junto e se divertir com isso, rir do mau humor do outro e ficar feliz com a alegria daquela menina da turma que você nem conversa tanto, ver tudo dando quase errado mas no fim mostrando que tudo dá certo e que o vale são momentos como esses que ficam na memória!
 Sentir que aquilo tudo vai ficar pra sempre ( pelo menos na sua memória) , ficar feliz de lembrar o que passou e que você viveu isso, com os melhores e diferentes amigos que a vida pode te dar e torcer pra que momentos assim se perpetuem não só em fotos tiradas no passeio, mas no coração de cada um que esteve presente.
O passeio foi muito legal, como sempre os passeios com a escola são. Mas nada se comparou ao tanto que bagunçaram e riram no ônibus na volta. Todo mundo muito engraçado, o Garfo comendo um montão, o Boca imitando as pessoas, o Eiras mexendo com as pessoas na rua, que respondiam alegremente diante daquele monte de crianças tão entusiasmadas. A Lili deu um jeito de se sentar com o Guminha. Um jeito que as meninas desde muito novas sabem dar. E o Guminha, como os meninos de qualquer idade, não entendeu muito bem a razão daquilo ( e se entendeu deu um jeito de fazer de conta que não tinha entendido nada) e fez a Lili bagunçar junto.
Naquela noite,antes de dormir o Guminha agradeceu novamente a Deus por todas a pessoas boas que Ele colocou no seu caminho e pelos momentos especiais que ele passa, passou e passaria com todos eles.


segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Guminha e o carrinho de rolimã


-Boca! Olha o que eu achei!
-Tábuas!!! Lisinhas!!!
Só quem é ou foi menino de pé no chão e muita liberdade para saber o que isso significa. Com tábua, um menino assim pode contruir o mundo!
-Carrinho de rolimã?
-Claroooooooooooooooo!!!
E nesse claro, saíram rapidinho em direção à oficina do seu Tico, pedir o que faltava. Ele era muito bacana, sempre deixava umas peças sobrando para a molecada da rua. Vai ver seu Tico também era menino de pé no chão, só que tinha crescido.
Passaram a tarde lixando, martelando, ajustando o carrinho. Pintaram com tinta vermelha, que tinha numa latinha perdida na casa do Eiras e grudaram uns números que o Tuco trouxe. A Lili só olhava, tinha medo de martelar o dedo. 
Tudo pronto, combinaram que revezariam o uso do carrinho: uma vez na descida cada um, sozinho. Depois iriam em duplas, depois...tinha tanto depois e tantas regras inventadas e não escritas, como só quem brincou na rua sabe. Em brincadeira de rua, as regras foram feitas para serem modificadas.
Menino de pé no chão não tem medo de se ralar. De se cortar. De dar com a cara no muro. Menino não tem medo de nada. Só de Merthiolate. Como o Guminha, que numa curva mal feita caiu de lado, ralou o braço todinho. Segurou o choro, lavou o machucado com a ajuda do irmão e foi avisar a mãe, já prevendo o pior:
-Ralei.
-Lavou?
-Lavei.
-Com sabão, direitinho?
-É.
-Vou passar Merthiolate.
-Não, mãe. Passa não.
-Filho, precisa, senão não sara.
-Do vermelho ou do branco?
-Do branco.
-Não, tudo menos o brancoooooooooooo, o branco ardeeeeee!!!
-Arde, mas sara. E não pode soprar depois que passa, porque os bichinhos que moram no ar e na boca vão parar em cima do machucado.
Só que é ou foi menino de pé no chão sabe o que é andar de carrinho de rolimã.
Só que é ou foi menino de pé no chão sabe o que é o Merthiolate arder.


Tem carrinho para vender hoje em dia, mas o legal é fazer o seu próprio carrinho...Não se sabe ao certo a história do mais radical dos brinquedos das crianças da década de 70 e 80 da região sudeste do Brasil. Pode-se dizer que os primeiros exemplares foram construídos em cidades como São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte, no final da décadas de 60, começo da década de 70. Explica-se. O principal material, as rodas, eram rolamentos conseguidos em oficinas de manutenção de automóveis. As oficinas em questão davam manutenção aos carros daquela época, os Chevrolets Belair, os Fordões 50 51, os Pontiacs os Mercuries os Dogdes e os sofisticados Oldsmobiles, todos carros importados.
Os rolimãs bons para fazer os carrinhos vinham da transmissão destes carrões americanos. Mas também qualquer carro nacional também descartavam estas peças, e oficina para consertar as antigas latas velhas que zero Kilometro já apresentavam problemas com ruas esburacadas e falta de via apropriadas para o trafego de 
veículos.
O maior problema era conseguir as rolimãs, sem pagar nada, simplesmente pedindo e as vezes executando pequenos serviços das oficinas, na maioria das vezes de limpeza para obter o prêmio.
Engraçado que carrinho de rolimã era brinquedo dos meninos mais pobres ou com menos condições que não podiam ter uma biclicleta, mas tornou-se o pai, hoje avô dos brinquedos radicais no Brasil.
Os carrinhos de rolimã eram levados as ladeiras asfaltadas e que igualmente somente se popularizaram com a urbanização das cidades igualmente na época de 60 e 70, o que novamente confirma a época aproximada do surgimento deste brinquedo.

 Vá à uma loja de ferragens e compre pinho, pense no seu tamanho, alto, baixo, gordinho.. e peça a tabua central.




Com a ajuda de alguém mais responsável que você, serre a tábua para fazer a frente do carrinho (desenho 1).



 Faça um furo na tábua e outro na ripa maior (desenho 2) e, com uma lâmina, arredonde as pontas das ripas na largura dos rolimãs (desenho 3).







Encaixe os rolimãs e coloque os calços feitos com as sobras da madeira (desenho 4).



Lixe tudo. Pinte as ripas e a tábua. Deixe secar. Pregue a ripa menor na parte de trás da tábua (desenho 5).



Fixe a ripa maior da parte da frente com o parafuso e a porca (desenho 6).



Teste o seu carrinho num lugar seguro, longe de automóveis e ladeiras. Não esqueça de usar capacete, luvas e joelheiras.Vá sem equipamento de segurança para você se ralar todo e mostrar as cicatrizes para todo mundo!!!


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