Dia de prova. A sala toda com os olhos espertos na professora, tentando adivinhar se iria ser fácil ou difícil. Ela, muito tranquila, disse:
-Para quem estudou está fácil. - e sorriu.
Claro que para quem estudou está fácil. E para quem está com a cabeça em outro lugar? Tenso.
-Vamos separar as mesinhas. Quero letra caprichada, organização nas respostas. Confio na capacidade de vocês.
Pronto, agora estava tudo perdido! Além de saber a matéria, tinha que fazer letra bonita! E essa jogada da professora de dizer que confiava, dava até uma dor no estômago!
Guminha recebeu o teste dele, colocou nome, número, data e a caneta paralisou. Nada. Lia as questões e nenhuma delas parecia fazer sentido. Lembrava vagamente dos nomes ali escritos, das batalhas e alguns lugares mencionados, mas responder qualquer pergunta era tarefa impossível. Fez força, tentou relembrar das aulas...não era possível, tinha estudado!
Pelo canto do olho via todo mundo entregando a prova, o tempo passando e ele ali, sem conseguir fazer nadinha. Sensação horrível, que só piorou quando ele entregou a prova na mão da professora e explicou o que havia acontecido.
- Calma, semana que vem tem outra. Tenho certeza que você sabe esse conteúdo. Te deu um branco, não foi?
Sim, era uma coisa ruim, tentar lembrar e não conseguir.
À tarde os meninos da turma e a Lili foram na casa dele, fariam um trabalho em grupo. Nem isso animou muito o Guminha, que estava com medo de ser esquecido para sempre.
A tarde passou rápido e no fim do trabalho eles podiam brincar, antes de ir embora. Chegou dona Linda trazendo bolo para a molecada se lambuzar de cobertura de chocolate e algo surpreendente! A câmera fotográfica dela!
Essa história aconteceu num tempo em que foto era raridade: quando alguém fazia aniversário, comprava um filme e colocava na máquina. Aí economizava fotos, porque os filmes eram de 12 ou 24 poses, só quem era muito privilegiado comprava filme de 36 quadros. No aniversário era sempre assim: foto da mesa pronta, foto do aniversariante com os pais, foto do aniversariante com os padrinhos e umas fotos da hora do parabéns. Se alguém saia desfavorecido, mastigando ou com a cara torta, só ia saber na hora que revelava o filme, o que às vezes demorava um pouco. Aí colocava as fotos num álbum e saia mostrando pessoalmente, porque rede social era coisa inimaginável.
Aconteceu que a dona Linda tinha feito aniversário e embora não fosse mais criança, quis tirar fotos do jeitinho que todo mundo tira e agora precisava acabar o filme para poder mandar revelá-lo.
-Criançada, vocês querem tirar fotos?
-Ah vó, tô chato hoje - respondeu o Guminha. - Tô com medo de ficar esquecido para sempre.
-Ah Guminha, você tão novo? Não tem como! Eu que estou mais velha poderia ter esse medinho.
-E não tem? - questionou o Boca
-Não. Eu tenho as minhas fotos que me recordam de tantas coisas boas. Tenho amigos que me contam as histórias que nós vivemos e um ajuda o outro a lembrar se faltar um pedacinho. A nossa história a gente escreve todo dia, não tem como dar branco. E se der, a gente pinta de colorido.


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