Na sala do Guminha, além dos amigos e da Lili, tinha também a Marcinha. Ela era bem diferente do Guminha, sentavam bem bem bem longe um do outro e mesmo assim eram mais que amigos. Amigos mesmo.
Eles se lembram como se conheceram, mas não conseguem lembrar do dia que se sentiram amigos.Nem como ela começou a ajudá-lo com as tarefas da escola. Nem como começaram a dividir o lanche. Nem quando se deram conta que tinha hora que pensavam igualzinho e ao mesmo tempo. Nem de como começaram a contar as coisas deles um para o outro. Nenhum assunto de Estado, mas coisinhas do dia a dia. Eles mandavam bilhetinhos o dia todinho, maior correio na sala de aula. Claro que a professora percebia, mas um dia estava tudo muito descarado. Era uma bilhetaiada sem fim!
- Guminha! Deixa eu ler esse papelzinho aí!
- Não posso deixar professora...
-Como não? Estou pedindo.
- É um segredo da Marcinha, se a senhora ler vai ser muito chato.
Realmente era um segredo, um segredo triste demais. Marcinha ria do começo ao fim da aula, mas era para disfarçar um aperto no coração. Estava tudo na conversinha de papel dos dois. 
Diante daquela negativa tão veemente, a professora ficou desconcertada.
- Se é segredo de vocês, deixa para contar no recreio.
Gente adulta não entende as urgências da vida. Era urgente desabafar para ela, como era urgente jogar bola no recreio para ele: nenhuma das duas coisas poderia esperar.
A parte chata de tudo isso foi aguentar os amigos. Por mais que sejam amigos, os meninos acabavam por achar que qualquer menina com quem o Guminha se desse bem era namoradinha e tal. Aí a Lili fechou a cara. O problemão seria agora do Guminha. Seria...
Seria porque ele era cabeça feita demais para cair nessas. A Marcinha estava numa fase tão estranha e cinza e contava com ele. E ele, mesmo bem pequeno entendia que as pessoas podem ser amigas, independente da idade, da cor de cada uma, do tamanho, do jeito e até se um era menino e o outro era menina. Dá para ser amigo até de bicho, planta e pedra.