quarta-feira, 27 de junho de 2012

Guminha em dia de decisão


Guminha acordou diferente aquele dia, meio nervoso e apressado com a vida: olhou para o relógio que ainda estava sonolento, era cedinho. Formigou na cama, virou e revirou até escutar a mãe preparando o café e logo pulou dali, como um furacão varrendo tudo, falando como uma metralhadorazinha de palavras. O Boca, que divide o quarto com ele, acordou já zonzo com o falatório do irmão, mas bastou se olharem para todo aquele agito fazer sentido. Ambos sabiam que aquele dia seria "o dia".
Foram tomar café da manhã aos gritos, alegres e implorando para a mãe dizer onde estavam as roupas da sorte. 
-Mãe, é hoje mãe! - disse o Guminha
-Calma filho, calma. É só um jogo.
-Como assim, só um jogo? É O JOGO!!!
- Eu sei meus filhos! Por isso estou fazendo tudo conforme a gente sempre faz! - disse a mãe, no seu sorriso de Sol, mostrando os pães cortados ao contrário.
Desde muito tempo eles tinha certas coisas a serem feitas em dias assim. Jogo é jogo, futebol era como um elo de alegria e gritos exagerados para eles. Estavam todos tensos, embora a mãe procurasse tornar as coisas mais fáceis. Mas a unha roída da mão direita denunciava que ela também estava agitadíssima para tudo começar. Ela também estava com aquela sensação geladinha na barriga, de medo que não é medo. Está aí algo de uma família bem brasileirinha: torcer pelo outro e ver seu coração batendo no corpo de outros onze. De ouvir o grito da torcida e sentir a alma arrepiar. De inventar que cada um tem um lugar certo para torcer, senão "dá azar". De gritar bem alto, contra ou a favor de uma jogada, de abraçar estranhos, de puxar papo com qualquer pessoa que torça para o mesmo time que o seu. Uma alegria redonda, bola que rola de um coração para outro. Um calor diferente, de torcer e vibrar.
Logo a avó chegou e foi envolvida por aquele clima. Ambas iam fazer o almoço de dia de jogo e os meninos foram brincar no campinho, narrando as jogadas que veriam e prevendo gols que seriam feitos. E o Senhor Tempo, esse danado que varia seus passos, insistia em não passar. Voltaram para casa, jogaram futebol de botão, bateram bafo, quebraram um vaso e nem era meio-dia ainda. Ligaram para o seu Jorge, que prometeu passar ali depois do almoço pois tinha uma surpresa para eles. Ufa, dava meia-noite não chegava a hora de almoçarem!
Ansiedade faz isso: querer que o agora pule direto para o daqui a pouco.
 Almoçaram, do jeito que sempre faziam em dias assim. Comeram frango assado e tiraram sorte com o ossinho em forma de Y, pedindo coisas secretas que no final era o mesmo desejo:  que o time deles ganhasse!
O Seu Jorge chegou  para a sobremesa,(o espertinho adora os doces da mãe do meninos), trazendo com ele as fotos do primeiro jogo visto pelos três ( o pai e os meninos) no estádio. O Guminha e o Boca eram quase bebês e na foto estavam segurando a bandeira do time, como se fosse um manto. Sorriam o mesmo sorriso daquele momento.
-Meninos - disse o seu Jorge - hoje o ritual será quebrado.
-Como assim pai? A gente vai perder! Temos que mandar boas vibrações para o time!
Isso não é uma conversa lógica, mas a lógica sai correndo quando a emoção chega!
-Por quê? - eles estavam sem entender nadinha.
- Porque nós vamos para o estádio, todos nós! 

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