segunda-feira, 24 de setembro de 2012

guminha em: a inauguração do supermercado



- Filho, vamos numa festa?
Era Jorge chegando fazendo barulho, louco para dar um abraço no Guminha!
-Festa? Agora cedo?
- É inauguração de um supermercado grandão. Vamos?
Claro que ele ia, nem que fosse de uma quitandinha bem pequenininha. O Guminha foi logo procurar o Boca, mas aí lembrou que ele tinha ido dormir na casa do Eiras e não voltaria.
- Mas vai só a gente?
-É, sua mãe contou que o Boca não está. Quer ir mesmo assim?
Era complicado. Metade dele queria e outra ficava mal pelo fato do irmão não ir junto. Pensou logo 3 segundos e decidiu.
-Vou sim, pai. O Boca está brincando, ele não vai ficar triste.
Se arrumou rapidinho, pediu benção para a Dona Maria e saiu feliz, de mão dada com o pai naquele sábado de manhã.
Quando chegaram no estacionamento do supermercado novo, o Guminha não acreditou no que viu: muitos brinquedos grandões, alguns daqueles infláveis, palhaços, música...e estava lo-ta-do! 
Logo foram para a fila do algodão doce. E depois do sorvete. E depois das balas. E depois das bexigas. E então o Guminha se soltou do pai e foi brincar. E brincou muito!
Primeiro foi no pula-pula. Era bem fofo, caía e ria muito. Sabe quando a gente ri e fica mole? Assim. Ria de ficar mole. Depois foi nuns brinquedos eletrônicos que ficariam para sempre no mercado, mas que depois da inauguração precisariam de fichas para serem usados: naquela manhã não, era tudo liberado! O Jorge, de longe, observava o filho, acenava feliz.
Aí o Guminha foi num brinquedo que de longe parecia muito legal: as crianças deviam andar por um cavalete e então rolar para um colchão. Avisou o pai e foi para a fila. Para marcar onde Jorge estava, olhou em volta e o viu conversando com um homem bem alto. "São amigos, se eu olhar o homem grandão vou saber que meu pai está junto". Depois de brincar duas vezes, notou que o que ele e o Boca faziam nos sofás da sala de casa era mais legal, decidiu trocar de brincadeira. Certificou-se de olhar o homem grandão e mudou de brinquedo, agora um futebol de sabão, muito mais legal do que todos os brinquedos que tinha ido até então. De vez em quando olhava para onde estavam os adultos e logo via o homem grandão, voltando logo à brincadeira. Brincou demais, demais, demais!
Eis que a dona Fome roncou e o Guminha decidiu chamar o pai para irem para casa. Foi até onde estava o homem grandão e o Jorge não estava junto.
- Oi, cadê meu pai?
-Não sei do seu pai não, menino.
- Ele é seu amigo, estava aqui com o senhor.
-Não tinha amigo meu comigo.
-Mas eu vi vocês conversando...
Não era amigo do pai, não sabia o nome dele e é claro que também não sabia onde ele estava. Um nó doído apertou a garganta do Guminha e as lágrimas começaram  a pular dos olhinhos dele.
Se viu sozinho, sozinho de verdade, pela primeira vez na vida. Era um vazio que nunca tinha sentido. Tanta gente em volta e ele sem a pessoa que ele mais queria naquele momento. Deu vontade de gritar, sentar e chorar como quando era um bebê. "Se o Boca estivesse comigo tenho certeza que ele daria um jeito nisso", pensou a cabeça enquanto as pernas procuravam por Jorge. Nunca tinha sentido aquela dor, uma dor que não era em lugar nenhum e ao mesmo tempo ocupava todo seu corpinho de criança. Na verdade a dor era maior que ele.
Enquanto andava pela festa pensou coisas muito ruins, que meninos de idade nenhuma deveriam pensar. Pensou que naquele momento a mãe e o Boca deveriam estar juntos em casa, esperando por ele e que ele nunca mais voltaria. Pensou no pai aflito ao procurá-lo, sentindo talvez a mesma dor grandona. Pensou na escola, nos amigos, na avó e teve uma saudade antecipada de tudo. Se viu perdido para sempre.
Mas os meninos têm um Anjinho sempre cuidando e o Anjinho do Guminha deve ter soprado bem fraquinho no ouvido dele, só pra ele poder ouvir, uma ideia para achar o pai: procurou o palanque da onde apresentavam a festa e de lá do fundo da sua dor saiu uma força muito maior para ajudá-lo a vencer qualquer barulho e chamar o rapazinho que estava com o microfone. Chamou, chamou, chamou até ser ouvido. Explicou para o moço o que estava acontecendo e o rapaz interrompeu a festa:
-O Bolinha tá aqui perdido - disse ele.
-Não, Guminha!
-O Babinha é que está perdido - errou mais uma vez.
-Não moço, Guminha! - impacientou-se o menino.
- O ...
- Guminha, meu filho, desce daí!
Era Jorge. Era o que ele mais queria. O abraço do pai, bem forte, de estralar os ossos e erguer os pés do chão. O melhor abraço que ele poderia receber naquele momento.




quinta-feira, 13 de setembro de 2012

guminha e o dia em que a vida da dona maria mudou


-Mãe, me conta como eu nasci?
Estavam no quintal, dona Maria estendendo as roupas e o Guminha ia entregando os prendedores. Ela parou, olhou bem para o rosto do menino:
-Nasceu lindo!
-Não mãe, a história, como foi...é isso que eu quero saber.
Estava um ventinho bom, as roupas já colocadas para secar roçando a pele do Guminha, aquele geladinho bom e perfumado de amaciante e sabão de roupa. Cheiro de cuidado.
-Vou terminar aqui e te conto.
-Ah mãe, mas vai contar mesmo?
- Vou sim. Pode acreditar.
Era o tipo de pergunta especial, diferente das perguntas cotidianas. 
"Mãe, onde está meu chinelo?"
"Mãe o que vai ter de almoço?"
"Mãe, que horas são no Japão?"
"Mãe, você gosta mais do Boca ou de mim?"
Era para ser respondida devagar, para saborear a resposta.
Dona Maria sentou, pegou um café fresquinho para ela e chamou o Guminha para comer bolo com suco e ouvir a história:
-Tem dia que acorda mais especial que os demais. Nesses dias, meu filho, o Sol brilha mais forte, o vento refresca diferente, a água está mais gostosa. Em dias assim coisas importantes acontecem...
Só de ouvir o comecinho, a boca do Guminha escancarou um sorriso.
Dona Maria continuou:
- Você nasceu num dia assim. Era Sol, era vento, era céu azul, azul, azul, azul. Eu não tive medo, não tive nada ruim. Era só ansiedade e alegria, Queria ver logo seu rostinho, poder te abraçar...A gente foi para o hospital e logo um foi avisando para o outro, parecia uma mágica: todo mundo foi adivinhando que você estava chegando e foi todo mundo indo para o hospital, que logo virou festa.
- Todo mundo?
-É filho, cada pessoa que sabia a notícia ia para lá torcer para dar tudo certo! E a mamãe ganhou tantas flores, bilhetinhos...e foi demorando, demorando pra você nascer...
-Demorou muito?
-Muito, muito não. Mas eu queria assim, uma mágica e plim, você estar no meu colo. Foi a primeira vez que eu fui corajosa de verdade. Não sabia direito o que estava fazendo e mesmo assim tinha toda a certeza que saberia fazer. Descobri que conseguiria encarar o mundo por você, lutar todos os dias para a gente viver bem, feliz. E um chorinho veio cantar no meu ouvido. Era seu. Era você.
-Você gostou?
- Se eu gostei? Foi como se eu pudesse voar, nadar, correr, pular e tomar uma montanha de sorvete tudo ao mesmo tempo. Era seu rostinho que eu tinha sonhado tanto. Era você no meu colo. Era a gente junto.



terça-feira, 4 de setembro de 2012

Guminha, Boca, Dona Maria e a viagem de avião


Da apresentação do Boca eles foram direto para o aeroporto.Os meninos não acreditavam no que viam, estavam pasmos diante das aeronaves na pista, das pessoas indo e vindo, dos pilotos passando apressadamente. 
Se cutucavam, mostravam coisas, mostravam pessoas falando outras línguas, mostravam malas coloridas, mostravam, mostravam, mostravam...era como se eles se sentissem num pedaço imaginado do globo terrestre, uma terra que não era de ninguém e ao mesmo tempo era de todo mundo.
Esqueceram da história de quem se sentaria na janelinha primeiro e por quanto tempo. Esqueceram o medo de voar a primeira vez. Saborearam estar ali. Viram as lojas. Comeram um lanche. Fizeram hora em meio aquele pedaço do mundo que permitia o ir e vir para muitos lugares. E pensaram em ser grande um dia e viajar bastante. E se tocaram que eram pequenos e que viajariam bastante. E se tocaram que o alto-falante chamava o voo deles. Era hora.
Deu um gelão na barriga, mas um gelão bem grande! E se o homem da entrada dissesse que as passagens não valiam? E se eles entrassem no avião e tivessem esquecido a mãe lá fora? Claro que nada disso aconteceu e o gelão foi embora assim que sentaram e afivelaram os cintos. E voltou muito forte quando ouviram o zunido da turbina, acelerando, o avião correndo até começar a subir e a sensação de terem comido borboletas grudar no coração dos meninos.
Depois relaxaram, começaram a rir das nuvens formando um tapete branco, das casinhas pequenininhas lá embaixo. E esqueceram de muitas coisas ruins que mesmo crianças pensam. E viram a mãe sorrindo feliz seu sorriso de Sol.
A viagem foi linda. Linda mesmo. De fazerem muitas coisas juntos. De andarem de bicicleta os três. De jogarem Uno à noite. De irem à praia e depois dar um mergulho bom na piscina. De não fazerem nada. De fazerem tudo. Estavam juntos e isso bastava.


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