segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Guminha e o carrinho de rolimã


-Boca! Olha o que eu achei!
-Tábuas!!! Lisinhas!!!
Só quem é ou foi menino de pé no chão e muita liberdade para saber o que isso significa. Com tábua, um menino assim pode contruir o mundo!
-Carrinho de rolimã?
-Claroooooooooooooooo!!!
E nesse claro, saíram rapidinho em direção à oficina do seu Tico, pedir o que faltava. Ele era muito bacana, sempre deixava umas peças sobrando para a molecada da rua. Vai ver seu Tico também era menino de pé no chão, só que tinha crescido.
Passaram a tarde lixando, martelando, ajustando o carrinho. Pintaram com tinta vermelha, que tinha numa latinha perdida na casa do Eiras e grudaram uns números que o Tuco trouxe. A Lili só olhava, tinha medo de martelar o dedo. 
Tudo pronto, combinaram que revezariam o uso do carrinho: uma vez na descida cada um, sozinho. Depois iriam em duplas, depois...tinha tanto depois e tantas regras inventadas e não escritas, como só quem brincou na rua sabe. Em brincadeira de rua, as regras foram feitas para serem modificadas.
Menino de pé no chão não tem medo de se ralar. De se cortar. De dar com a cara no muro. Menino não tem medo de nada. Só de Merthiolate. Como o Guminha, que numa curva mal feita caiu de lado, ralou o braço todinho. Segurou o choro, lavou o machucado com a ajuda do irmão e foi avisar a mãe, já prevendo o pior:
-Ralei.
-Lavou?
-Lavei.
-Com sabão, direitinho?
-É.
-Vou passar Merthiolate.
-Não, mãe. Passa não.
-Filho, precisa, senão não sara.
-Do vermelho ou do branco?
-Do branco.
-Não, tudo menos o brancoooooooooooo, o branco ardeeeeee!!!
-Arde, mas sara. E não pode soprar depois que passa, porque os bichinhos que moram no ar e na boca vão parar em cima do machucado.
Só que é ou foi menino de pé no chão sabe o que é andar de carrinho de rolimã.
Só que é ou foi menino de pé no chão sabe o que é o Merthiolate arder.


Tem carrinho para vender hoje em dia, mas o legal é fazer o seu próprio carrinho...Não se sabe ao certo a história do mais radical dos brinquedos das crianças da década de 70 e 80 da região sudeste do Brasil. Pode-se dizer que os primeiros exemplares foram construídos em cidades como São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte, no final da décadas de 60, começo da década de 70. Explica-se. O principal material, as rodas, eram rolamentos conseguidos em oficinas de manutenção de automóveis. As oficinas em questão davam manutenção aos carros daquela época, os Chevrolets Belair, os Fordões 50 51, os Pontiacs os Mercuries os Dogdes e os sofisticados Oldsmobiles, todos carros importados.
Os rolimãs bons para fazer os carrinhos vinham da transmissão destes carrões americanos. Mas também qualquer carro nacional também descartavam estas peças, e oficina para consertar as antigas latas velhas que zero Kilometro já apresentavam problemas com ruas esburacadas e falta de via apropriadas para o trafego de 
veículos.
O maior problema era conseguir as rolimãs, sem pagar nada, simplesmente pedindo e as vezes executando pequenos serviços das oficinas, na maioria das vezes de limpeza para obter o prêmio.
Engraçado que carrinho de rolimã era brinquedo dos meninos mais pobres ou com menos condições que não podiam ter uma biclicleta, mas tornou-se o pai, hoje avô dos brinquedos radicais no Brasil.
Os carrinhos de rolimã eram levados as ladeiras asfaltadas e que igualmente somente se popularizaram com a urbanização das cidades igualmente na época de 60 e 70, o que novamente confirma a época aproximada do surgimento deste brinquedo.

 Vá à uma loja de ferragens e compre pinho, pense no seu tamanho, alto, baixo, gordinho.. e peça a tabua central.




Com a ajuda de alguém mais responsável que você, serre a tábua para fazer a frente do carrinho (desenho 1).



 Faça um furo na tábua e outro na ripa maior (desenho 2) e, com uma lâmina, arredonde as pontas das ripas na largura dos rolimãs (desenho 3).







Encaixe os rolimãs e coloque os calços feitos com as sobras da madeira (desenho 4).



Lixe tudo. Pinte as ripas e a tábua. Deixe secar. Pregue a ripa menor na parte de trás da tábua (desenho 5).



Fixe a ripa maior da parte da frente com o parafuso e a porca (desenho 6).



Teste o seu carrinho num lugar seguro, longe de automóveis e ladeiras. Não esqueça de usar capacete, luvas e joelheiras.Vá sem equipamento de segurança para você se ralar todo e mostrar as cicatrizes para todo mundo!!!


Um comentário:

  1. Eu nunca montei o meu, meus primos faziam isso... hehehe sempre fui uma diva que tive pessoas que fizessem para mim hahaha. Mas sim, sempre tive do "branco". JEsuiiiis

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