Uma temporada bem sucedida no circo e a casa do Guminha e do Boca ganhou alguns mimos. Um reparo ali, uma cortina nova ali, trocaram a cor do portão e a geladeira por uma nova, coisas que precisavam ser feitas e que nunca eram, porque somadas significavam um aperto no orçamento.
-Maria, vou colocar TV a cabo.
-Como assim Jorge? E depois, tem assinatura...
-É por minha conta, acho que vocês vão gostar bastante.
Logo o moço da operadora veio, furou-martelou-passou cabo e pronto: tinham canais que nem pensavam existir. De fato, gostaram mesmo. Menos o Guminha. 
O Guminha não gostou: enlouqueceu, viciou, pirou na tela que gritava novidades, desenhos, documentários, musicais.Mal chegava da escola, queria até comer em frente a TV. Respondia monossilabicamente, nem olhava nos olhos de quem ele estava conversando. Não conversava.
-Guminha, vem fazer dever!
-Depois que acabar esse desenho. 
-Guminha, vamos passear!
-Não posso, estou vendo um filme inédito, tá no meio.
Devagar o menino até perdeu a cor de rua e brincadeira e ficou um pouco verde. De verdade: verde-telinha!
A mãe argumentou, o Boca implorou a presença do irmão nas folias e nada. Seu Jorge o chamou para uma conversa, daquelas sérias, com o tom baixo e voz firme:
- Guminha,tudo tem limite. TV é legal, a informação vem toda mastigadinha, nossa cabeça às vezes nem precisa pensar. Tem desenho, tem comédia, é sim uma janela para o mundo. Mas você é mais que isso e está perdendo tanta coisa: você é o menino que corre e vibra com o vento no rosto. Quando chove e você e seu irmão soltam barquinhos na enxurrada, vocês  sentem o gelinho da chuva e o cheiro de terra molhada. Quando você lê seus livros, você cria coisas que nenhum programa de TV jamais mostrou...TV te faz companhia, mas não te abraça, não te aperta e afofa. Você é do Sol, da rua, da brincadeira, da pipa e do pião...
Enquanto o pai ia falando, o Guminha ia se tocando de tanta coisa boa que dava para fazer e ele tinha deixado completamente de lado por conta de ter ficado fissurado pela novidade. A conversa fluiu por tanto tempo e emendou com a jantinha quentinha servida pela mãe, pelo jogo de cartas em que o Boca sempre ganhava e o maravilhoso bolo de chocolate da dona Linda de sobremesa que ninguém notou que a TV ficou desligada. Estavam ligados uns nos outros.