Quando a gente viaja, troca a roupa da alma. Mesmo que tenhamos percorrido a mesma estrada, ela é sempre nova. A paisagem pode ser a mesma, mas nosso olhar sobre as coisas pode ter mudado.
Nas férias de julho o Guminha voltou para a chapada dos Veadeiros: Clara, Hebe Maria, José Rei, Eiras e ele. Viram o Sol se pôr na estrada e a Lua iluminar a jornada. Dormiram no caminho e deu até pra fazer festa do pijama. E mal fecharam os olhos, já era um novo dia e a a vontade de chegar era grande demais. E chegar foi um presente. Deixar de lado o cotidiano, desacelerar o coração das coisas que passam pela cabeça da mais nova das crianças. Conviver com estranhos que se tornaram amigos. Aquele tipo de amigo que se faz em viagem e mora num lugar especial na mente de quem viajou.
Lembraram histórias e escreveram outras. Novas cores no horizonte. Estrelas cadentes permitindo novos pedidos. O agradecimento na alma de cada um. Colecionaram histórias e até brigaram, como todos os amigos fazem. E depois fizeram as pazes sem nada precisar ser dito, porque é assim que funciona com as pessoas que são destinadas a viverem juntas um caminhar.
Houve Sol. As mais belas cachoeiras. A música cantada junta no carro. A tapioca de todo dia, as trilhas que machucam os pés e curam a alma. Rios de águas cristalinas, desenhos em nuvens, céu azul. Forró pra dançar, muitos sorrisos... E de vez em quando um arrepio bem forte, não de frio. Arrepio de agradecimento, de sentir a presença de todas as coisas boas que podemos viver. E nunca podemos deixar de acreditar que é possível vivê-las. Entregar, confiar agradecer. E se lançar no novo, se desafiar. Mergulhar na água gelada porque sabe-se que será incrível. Saltar do monte mais alto, caminhar pelos montes mais íngremes. Ter coragem de viver. De viver de verdade. De abrir as janelas da alma e enxergar o lá fora de cada um. Rir dos tombos, tirar muitas fotos para registrar o que a mente brincar de esquecer. Eternizar instantes e querer viver outros tantos. Achar que o tempo é pouco para tantas coisas bacanas. E sentir saudade antes mesmo de ir embora. Como se aquilo tudo já fizesse parte de cada um. Cada ruazinha, cada pedra no caminho, cada folha caída das árvores.
Nenhum dos cinco conversou sobre nada disso. Mas como se tudo tivesse sido dito, porque existe algo chamado sintonia. A sintonia que coloca as pessoas juntas quando precisam passar um tempo juntas. Sintonia que te faz pensar muito parecido com o outro, ou muito, muito diferente e mesmo assim entender e saber respeitar. Enquanto couberem estrelas no céu o Guminha e seus amigos lembrarão de detalhes felizes que os uniram por aqueles dias, que sempre serão poucos, porque sempre existe a vontade de ficar mais. De voltar mais um vez. De desbravar outras estradas e lugares. De fazer do Inverno um Verão. Não importa quantos anos você tenha. Somos sempre meninos brincando: de pés no chão, joelhos ralados e cabeça nas nuvens.

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