A dona Linda às vezes ia ao asilo visitar as pessoas que ali moravam. Era um asilo bem bacana, bem cuidado e com varandas envidraçadas que enchiam de luz aquele lugar cheio de histórias e lembranças vivas. Não era para visitar ninguém em especial, mas para se doar, ouvir, abraçar, sentar ao lado. Coisas boas de se receber independente da idade que se tenha.
Algumas vezes o Guminha e o Boca iam com a avó. Gostavam de saber da vida dos internos, como tinha sido a infância deles, jogavam damas juntos e às vezes só ficavam ali, sem falar nada, pelo prazer de estarem juntos daquelas pessoas que viram tantas coisas e tinham tanto para ensinar a eles. Talvez fosse essa a lição que os meninos aprendessem com essas visitas: valorizar quem tem a pele toda dobradinha, como mapeada pela vida que viveu.
Numa dessas visitas eles demoraram um tantão além do horário que costumavam ir embora. Veja só: os meninos tinham horários muito certinhos a semana toda, pois acordavam cedinho para a aula e ficavam com fome cedo, querendo almoço assim que chegavam em casa. Como a barriguinha da gente não sabe que dia da semana é, a fome aparece sempre no mesmo horário. Foi isso, ou foram outras coisas também, que aconteceu naquele sábado de manhã...
Já tinha passado da hora da refeição, um solzão brilhava forte num céu bem azul, sem uma nuvenzinha. Sabe quando as pessoas grandes dizem que vão embora e a gente implora pra ficar mais cinco minutinhos? Pois a Dona Linda cincominutou bastante nessa manhã quase tarde. Ficou lá, dizendo tchau para a freira que cuidava de tudo, sabendo detalhes de uma história compridona. Os meninos, com fome e tudo, adoraram e pediram para brincar no jardim do asilo. Eles nunca tinham brincado lá, era toda a parte da frente, cheio de canteiros e estátuas de santos. Vai juntando aí: sol na cabeça + fome + dois meninos correndo e brincando + duas cabeças imaginativas demais. Depois de tudo junto, coloque o Guminha bem alucinado de tanta alegria de estar num território novo e cheio de coisas nunca vistas...
- Boca, a santa mexeu!!! Tá rindo e mexendo o braçoooooooooooooooooo!!!!!
Nós nunca vamos saber se o que o Guma fez foi de juntar sol, fome e imaginação ou se a santa, tão feliz de ver os meninos brincando, resolveu deixar de ser estátua e brincar também. O fato é que o Boca correu, correu, correu e capotou, capotou, capotou! Se machucou todo, caindo e rolando pelo cimento quente, os canteiros de rosas, a terra, as pedras. Quando acabou de cair e capotar ele começou a chorar, o que fez com que o Guminha ficasse muito preocupado, pois o Boca nunca chorava! Sentia-se culpado, não queria ter assustado o irmão.
O Guminha só agradecia a Deus por não ter acontecido nada mais grave com o irmão, afinal o tombo foi feio. Ele só se acalmou quando notou que o Boca começou a olhar para os ferimentos com cara de SOU MAIS FORTE QUE ESSES MACHUCADOS!
Essa história quase termina assim: a pele do Boca e o coração do Guminha ralados igualmente. Quase porque um dia, quando crescerem, rirão muito de tudo isso. Lembrarão detalhes, pode ser que se lembrem até da roupa ou da cor das flores da roseira. Podem ser que lembrem que sempre foram felizes juntos.
P.S essa história é em homenagem à Juliana Brombal Toffollo, que se ralou quando criança e hoje carrega consigo marcas de uma infância feliz!

Esses ralados externos eram tão melhores né, porque agora os internos são mais difíceis de curar e a dor parece maior. Mas como sempre, Guminha me transporta para um mundo colorido em que a realidade parece sem graça e fico com vontade de morar no mundo de Guminha. =)
ResponderExcluir