Os meninos estavam felizes no campinho, jogando um fut-malandro quando buuuuuuuuuuuuum!
- Não acredito que a minha bola estourou!!! - Guminha estava boquiaberto.
- Calma Guma, de repente dá pra consertar.
- Nem dá Eiras, olha só...
O Guminha não queria, mas o queixo dele já estava dando aquela tremidinha que avisa que o choro vem vindo. Na verdade não era choro. Era uma angústia diante do "E AGORA?"
- Guminha, vamos pra casa. A gente vê se a mãe arruma, ela é sempre muito esperta. - disse o Boca, tentando acalmar o irmão.
Foram todos, suados e cheios de terra, para casa da Dona Maria.
- Dona Maria, olha só a bola do Guminha. Estourou...
O Eiras que teve que falar o que tinha acontecido, porque o Guminha já estava pensando coisas muito estranhas. Dentro da cabeça dele estouravam perguntas como pipocas no óleo quente: "Como vou jogar agora?"; "Como vou fazer sem a minha bola da sorte?"; "Será que nunca mais farei gols?"; "A Seleção Brasileira de Futebol nunca me descobrirá?"
O Boca foi buscar água e estava todo nervoso, tentando achar um jeito de que as coisas ficassem bem.
- Olha filho, não vai ter jeito não. Estourou a câmera, a parte de dentro. Essa bola já era.
Na cabeça do Guminha essa era uma notícia que mereceria destaque na televisão, com interrupção da programação e tudo. Não entendia a mãe com cara normal e sem se abalar diante do fim da sua bola.
- Qual o drama?
- Qual o drama? Minha bola morreu!!!
Nesse momento a Dona Maria entendeu que razão nenhuma surtiria efeito. É o tipo de problema que só colo de mãe resolve. Ela então largou tudo o que estava fazendo, sentou-se com os três e teve uma conversa muito importante.
-Mãe, como eu vou viver sem a minha bola da sorte?
- Da mesma maneira que você vive sem seu naninha, que usava quando era bebê. Ele até tinha nome, era Didi, você lembra?
- Mas é diferente, mãe...
-Da mesma maneira que o Boca vive sem o travesseirinho que ele carregava para todo lado.
- E eu tia, tinha um dado que eu não largava nunca. - emendou o Eiras.
-Um dia, meu filho, você entende que é hora de deixar algumas coisas para trás. Às vezes a gente escolhe. Ás vezes a vida escolhe por nós. Hoje sua bola estourou, mas poderia chegar o dia de você deixá-la num canto e até esquecê-la. Não porque você é ruim e desalmado. Não porque você usa as coisas e depois deixa tudo num canto, mas porque a vida tem ciclos.
-Ciclos?
-É, tipo um pedaço com começo, meio e fim.
-Minha bola era tipo um círculo mãe, não um ciclo.
Dona Maria sorriu e continuou:
- Tem uma hora que esse ciclo tem fim. Você não percebeu muito, nem um de vocês três percebe, mas vocês cresceram. Cresceram tanto que estragaram a bola com um chute. Vocês hoje são diferentes do que eram ontem e são diferentes do que serão amanhã. E isso não é ruim, mas tem que ter força na hora de deixar um ciclo acabar.
- Como assim, tia?
- Um dia Eiras, no lugar de você pensar em qual brinquedo você vai levar na sexta-feira na escola, você vai estar cuidando da roupa do seu casamento. E vai gostar disso, e ficar feliz igual quando você marca um gol. Como hoje eu cuido dos meninos e sei que um dia eles vão cuidar de mim.
- Conta mais disso de ciclo. - pediu o Boca.
- Ah, tem muito disso na vida. Tem gente que chama de fase. Tem gente que chama de época. Eu chamo de ciclo. Cada um nos ensina coisas e deixa marquinhas na gente. Mas tem que ter uma coisa chamada DESAPEGO para entender que ele tem fim. E quando acaba, acabou mesmo. Dá para matar a saudade de algumas coisas, mas elas ficam lá atrás, no lugarzinho delas. Viver é andar para frente.


Nossa que lindo esse post Clau, amei, por isso o José é tão esperto e maravilhoso pois tem essas explicações desde pequeno. Bjs adoro vcs.
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