O Guminha há tempos não lia uma revista, depois que ganhou um
celular de Natal, perdeu o hábito de folhear algo de papel. Naquela manhã, no
barbeiro, enquanto esperava sua vez de cortar os cabelos, pegou uma num
montinho e resolver ver o que ela trazia de diferente...descobriu coisas que
mexendo no celular nem teria curiosidade de saber e achou tudo muito legal! Já
estava quase acabando quando viu um Concurso Cultural, daqueles que é
necessário juntar uma galera e fazerem tarefas juntos para ganhar. Se empolgou
na hora! E na hora mesmo começou a pensar nos colegas de turma e quais deles
topariam o desafio...alguns tinham cara de legal, mas não eram próximos,
outros, que eram próximos talvez não topassem...teria que pedir para a
professora e falar com todos de uma vez, explicar tudo certinho e tentar
convencê-los a formarem uma equipe.
Depois do barbeiro, correu para casa para almoçar a super
comida da avó e tomar banho para ir para o Colégio. Já tinha ensaiado o que
diria para fazer tudo dar certo...logo que chegou, pediu para conversar com a
Dona Cidinha e explicou tudo para a professora, que amou a ideia. Antes do
intervalo, deu a palavra a ele, que com um sorrisão gigante, ficou em pé, na
frente da sala toda e contou da revista e do Concurso. Se admirou de si mesmo e
das palavras que dizia, porque quando tinha ensaiado na sua própria cabeça,
tudo parecia mais difícil, mas os sorrisos de seus amigos foram surgindo, o
encorajando a prosseguir. Lá no fundo da sala, o Marcão, que vivia com cara de
jaca verde disse:
- Somos 25, precisamos de mais 25.
Guminha não tinha pensando nisso. Seu peito apertou. Marcão
tinha razão. Mas um raio de Sol veio na voz da Clara:
- Guminha, eu era da outra turma, conheço todos eles! Eles
vão topar! Eu te ajudo a convidar todos!
Ufa! Uma ideia nova, brilhante! Todos começaram a se
empolgar, querer participar, bolar estratégias para convidar a outra turma. A
dona Cidinha virou menina de novo, comovida e empolgada com a atmosfera criada
por aquele desejo, coisa que que na idade do Guminha não se nota. Talvez por
isso, mesmo com o agito todo, ele continuasse apreensivo: era o mostrinho do
medo aparecendo com suas garras de rasgar sonhos. Mas todos aqueles meninos e
meninas sorriam tanto, que o medo ficou com medo e fugiu: levados pela dona Cidinha,
foram até a outra sala e, com permissão da dona Rita, convidaram a turma do
lado. Lá que fez o convite foi a Clara, e as palavras dela aliviaram o coração
do menino, de um jeito tão bom que ele não saberia explicar. Estava quase em
outro mundo, vendo as mãos erguendo, uma a uma, dos novos amigos, diante da
pergunta das professoras:
- Quem quiser participar é só se manifestar que vamos anotar
os nomes.
E nome a nome foi sendo escrito por dona Rita, enquanto a
dona Cidinha correu na secretaria providenciar as cópias das inscrições. No
final, 50 inscritos !!!
Tão animados que estavam, nem ouviram o sinal do intervalo e
nem pararam para as brincadeiras de todos os dias: estavam parecendo
executivos, delegando funções, escolhendo estratégias, agindo como pessoas que
têm um objetivo e sabem o caminho para chegar até ele.
Durante os dias que se seguiram, se encontravam como podiam:
era no pátio durante o recreio, era na pracinha da frente depois das aulas, era
na casa da Paulinha, dona do maior quintal de todos...e o Guminha percebeu que
pouco se falava sobre o prêmio, que era um final de semana no acampamento
mais maneiro do mundo e muito se fazia
junto: eram agora uma corrente linda de 50 elos! Sentiu um amor diferente por
pessoas que antes, para ele, não tinham relevância. União e laços foram criados
entre risadas e mal entendidos, que logo eram resolvidos, porque estavam todos
juntos buscando o mesmo resultado. Os 50 foram se tornando centenas, pois as
pessoas abraçavam a ideia daquelas crianças, e tudo foi sendo multiplicado:
eram agora milhares, já que cada um tinha muitos amigos e agora para eles havia
um significado muito maior: tinham o prazer de criarem coisas para fazerem as
pessoas rirem, criarem coisas geniais para alcançarem as metas. As bobagens que
faziam todos rirem davam um quentinho especial no coração de cada um que se
envolvia no projeto. De um jeito ou de outro todos foram tocados, pois viam o
quanto de pessoas legais eles tinham por perto e que mesmo nas horas tensas
(como quando acharam que tinham perdido todos os arquivos no computador do João
e a dona Cidinha apareceu sorrindo com um pendrive com tudinho salvo), a
vontade de ir em frente era maior que a de desistir.
O prazo final estava chegando...um dia antes do resultado ser
anunciado pela empresa organizadora, o menino pediu ajuda das professoras e
chegou mais cedo no Colégio. Na lousa de cada sala, escreveu um recado para as
turmas: QUERO GRITAR OBRIGADO PELOS DIAS QUE VIVEMOS ESTE SONHO JUNTOS. MEU
MAIOR PRÊMIO FOI ENTENDER O SIGNIFICADO DA PALAVRA UNIÃO.
Cada um que leu aquilo, sentiu um gostinho salgado de
lágrima, temperado com felicidade. E agora cada um está super ocupado fazendo
as malas: o ônibus sai já já. Serão quilômetros de abraços de vitória.
* O título de nossa história é também o título de uma música da banda Forfun: segue o link, ouve aí :)
https://www.youtube.com/watch?v=Fg02-SlEgSI


Nenhum comentário:
Postar um comentário