"Quando a gente cresce tem uma mania muito chata de reclamar do tempo. Tem hora que reclama que tá calor, tem hora que reclama que tá frio, reclama que o tempo tá seco...mas quando a gente tem a idade do Guminha acha tudo sempre muito bacana, como no dia que ele foi à biblioteca devolver um livro que o Boca havia emprestado e ele adorou ler também. E ele foi sozinho até lá. pois ele mora numa cidade bem grande, mas o bairro dele permite que os meninos andem sozinhos na rua.
Nesse dia estava um calor gigante, todo mundo com a sensação que ia derreter. Ninguém sabe o porquê, mas o Guminha estava de calça jeans, camiseta e tênis, mesmo estando tão quente. Como também ninguém sabe o porquê dentro da mochila que ele carregava tinha um chinelo. Na volta pra casa, o céu que estava todo carregado daquelas nuvens de barriga cinza escuro resolveu chover tudo o que podia. Uma chuva deliciosamente gelada, grossa, que fez logo formar uma correnteza na rua.
No começo ele correu pra se proteger embaixo do toldo de uma loja. Mas só no começo. Aquele mundo de água parecia chamá-lo pra fazer bagunça. Ele então tirou a camiseta, o tênis e colocou o chinelo.
E se jogou na chuva, bem feliz. E foi correndo, gritando, cantando...até que apareceu uma poça enorme na frente dele. E no lugar de desviar, ele pulou bem forte no meio dela, pra espirrar água pra todo lado. E espirrou mesmo! Mas um dos chinelos dele ficou preso no fundo, saindo do pé dele e indo embora com a correnteza. O Guminha ria e gritava: "Volta chineloooooooo", mas é claro que chinelo não ouve e não voltou. Ele correu num pé só, pensando que o chinelo voltaria. Deu certo! Só que quando o Guminha foi calçar o chinelo recuperado, ele perdeu o outro! E começou a gritaria, os risos e mais uma vez ele correu num pé só, em busca de um chinelo danado que entrou na brincadeira de bagunçar na chuva. E o chinelo e o Guminha correram e brincaram tanto que ele nem percebeu que já estava quase em casa. A chuva foi diminuindo, devagarinho, enquanto o Guminha entrou e foi rapidinho tomar banho quente.
Quando ele terminou o banho, já não tinha mais chuva, mais poça, mais nada. O Boca ficou morrendo de vontade de brincar na chuva também, quando soube de toda a história. Mas a dona Maria estava preocupada: com a chuvona um pedacinho do telhado do quarto dos meninos voou.
"E agora?" disse ela. O Guminha pensou um tiquinho e deu uma resposta que tornou o rosto da mãe iluminado, trazendo de volta aquele sorriso que era sempre Sol.
" Não liga mãe: quem perde o telhado ganha as estrelas!"


Como é bom brincar na chuva e achar que na verdade é um chuveiro bem grande. Como é bom brincar e pensar que estamos num riacho quando estamos numa poça. Como é bom ver o nosso chinelo navegando, eu sempre apostava corrida entre cada pé. Guminha me diverte, Guminha me faz lembrar a criança que nunca se perdeu dentro de mim.
ResponderExcluir