Tem gente que conta as horas no relógio e os dias no calendário. O Guminha e o Boca ficaram, por esse tipo de contagem, uma semana no circo. Mas tem momentos tão cheios de vida e intensidade que não tem como contar, mensurar ou tentar dizer como foi. Vamos dizer que eles ficaram lá o tempo de serem felizes.
No circo a vida é puxada: muito treino, dedicação, trabalho pesado mesmo. Os artistas cuidam de tudo também, desde a limpeza da lona até a divulgação do espetáculo, fazem sua comida e cuidam de suas casinhas. Os meninos entraram no ritmo logo de cara, aprendendo um monte de coisas bacanas, ajudando o pai em várias tarefas. Claro que o Jorge os incentivou a participarem do espetáculo também!
- A gente pode?
- Claro! No do domingo, como despedida!
Nina, que além de bailarina costurava pra todo mundo ali, confeccionou uma roupa igual à roupa do pai pra cada um deles. O Boca procurou algo que ele gostasse e logo tinha um número só dele. O Guminha ia ser parceiro do pai nas alturas.
As noites naquele tempo de ser feliz foram mágicas. Cada um deitava na sua cama, mas logo os três estavam grudadinhos, espremendo o pai, fazendo cócegas, cantando e contando histórias. O pai ia contar as dele, mas acabava dormindo no meio, cansado do dia inteiro de sobe e desce no trapézio. Então eles imaginavam como ela poderia acabar e no dia seguinte cada um dizia a sua. E riam demais das histórias malucas que contavam. Eram realmente como três grandes amigos, não importando o tamanho ou a experiência de vida de casa um. Tempo não é nada quando a gente ri.
Eis que chegou o grande dia! O circo estava cheio, mas mesmo que estivesse bem vazio seria grandioso! A mãe e a avó estavam ali para vê-los!!!
O Boca logo entrou no picadeiro! Seu número era com uma bola de futebol, que ele dominava com embaixadinhas e malabarismos incríveis! O mágico havia preparado aquela bola de tal maneira que todos imaginavam que ela estava pegando fogo, para desespero da dona Maria, que achou que era tudo verdade! Boca foi aplaudidíssimo, teve gente que até ficou em pé e gritou "Bravo!!!", igual nos filmes antigos.
Aí foi a vez do Guminha. Ele estava lá no alto de um lado, o pai de outro. Muita tensão no ar. Deu medo. A mão do Guminha suava, o joelho até dava uma tremidinha. Então começou: o pai saltou e balançou por diversas vezes, naquele ir e vir estonteante. Como combinado, ele se prendeu pelos joelhos dobrados e esticou os braços para o filho. Era o sinal...Guminha hesitou. E se? E se caísse? E se fizesse feio? E se errasse? E se?
Então ele pensou na mãe lá embaixo, na avó deliciada de estar ali novamente e pensou no irmão, que tinha feito seu número tão bem feito...pensou no pai que havia largado tudo para viver um sonho e pensou em si, vestido como um grande artista. E não pensou e mais nada, apenas pulou!
No dicionário estão escritas muitas palavras e para cada uma delas seus significados. Cada um de nós também tem um dicionário, que vai sendo escrito ao longo da vida. No dicionário do coração do Guminha ele escreveu mais uma palavra nesse dia. Ele aprendeu o que significa CONFIANÇA. Mas para escrevê-la ele só precisou lembrar das palavras do Jorge no treino do sábado:
- Confiança meu filho. Você vai pular e eu vou te segurar. Isso é confiar: é se jogar no nada sabendo que o outro estará lá por você. Não porque ele prometeu. Não porque ele é seu pai, seu irmão, seu amigo. Porque você sabe que ele estará. Confiar é acreditar que tudo vai dar certo e que você nunca estará sozinho.
Depois de tudo, quando todos os espectadores foram embora e as mochilas estavam novamente no carro, foi a hora de dizer até logo. Os meninos iam começar um choro. O coração da mãe feito manteiga aquecida ia começar a escorrer pelos olhos, mas Jorge foi forte por todos eles.
-Pai, a gente queria que essa semana durasse para sempre.
-É?
-É, foi tudo tão legal que não podia acabar. Nem quero ir pra escola - disse o Boca.
- Meninos: essa semana é passado. O passado é um lugar bom demais pra ser visitado, mas não se pode viver nele. Estaremos sempre juntos, independente de quando, de que jeito. Sempre juntos!

Nenhum comentário:
Postar um comentário