Teve um dia sem registro na memória do Guminha: o dia em que os pais dele se separaram. Isso é um assunto que ele nem lembra muito, acostumou tanto a viver com a dona Maria e o Boca que nem se recorda como era quando o seu Jorge morava com eles. Mas teve esse dia.
O Guminha não lembra, mas a dona Maria sabe direitinho o frio na barriga que deu se ver ali, com os dois meninos. Eles sentaram e conversaram. Ficaram em pé e conversaram. Ficaram sem conversar. Voltaram a conversar e decidiram que cada um seguiria a sua vida de um jeito. Entenderam que se ficassem juntos brigariam muito, mas muito mesmo. O Guminha e o Boca, que só tinham visto os pais discutirem porque o seu Jorge não tinha colocado o lixo do lado de fora, acharam tudo muito estranho. Mas só um pouco.
Depois do dia sem data em que o pai foi embora, as coisas se ajeitaram do jeito que tinham que se ajeitar. Não teve nada ruim, fora a saudade. O pai do Guminha é uma pessoa bem agradável, risonha, com o coração de um menino.
Quando a dona Maria contou que eles teriam outra casa, logo começaram a imaginar como seria. E para cada pergunta deles, um não.
- Tem um quarto pra cada um?
-Não.
-Tem elevador?
-Não.
-É apartamento?
- Não.
-É casa?
-Não.
Aquele monte de não estava deixando o Boca e o Guminha confusos. A dona Maria ria.
-Calma os dois. Amanhã nós vamos visitar o pai.
É...tem dias que o amanhã parece demorar uma semana.

Prevejo um livro, um belo livro, no horizonte.
ResponderExcluirque assim seja!
ResponderExcluir