Era férias de julho e mesmo assim estava quente. Não quente de dezembro, quente de ficar de camiseta e poder jogar bola no campinho. O céu estava tão tão tão azul que parecia que Deus tinha derramado a tinta toda de uma vez e espalhado com as mãos. Tudo para ser um dia bem feliz. Mesmo assim, calava lá dentro do coração do Boca uma coisa esquisitinha. A vó Linda, que estava tomando conta dos meninos naquela manhã, notou mas fingiu que não percebeu nada: tem horas que não falar diz muito.
Logo o Guminha voltou da casa do Eiras e sentou pra brincar de damas com o irmão. Entre uma jogada e outra, o Boca o surpreendeu com essa:
-Guma, o que é saudade?
-Ah...é uma coisa assim...a gente quer perto quem está longe. Ou quem foi embora.
-Como assim?
-O vô foi morar no céu e às vezes eu vejo a vó triste. Eu sei que é saudade.
-Entendi. E quando a gente tem saudade da gente mesmo?
Poderia ser uma conversa de pessoas de 100 anos, mas eram dois meninos sob o Sol de julho, pensando coisas e definindo coisas tão difíceis de serem definidas. Como a avó, o Guminha nada disse. Apenas abraçou o Boca, num abraço que significava "quando você sentir saudade de você, conta comigo". O irmão entendeu e abraçou também, como quem dizia " e você conta comigo".
À tarde, o Guminha deitou quieto no cimento do quintal e ficou olhando para dentro de si. Pensou na saudade como uma coisa ruim, primeiro. Depois pensou que só sente saudade quem viveu aquele momento, quem esteve com aquela pessoa, naquele lugar, naquela data bacana de ser lembrada. E achou que saudade é isso: um livrinho de memórias que a gente vai escrevendo conforme vive. E ter saudade de si é normal. Ele sabia disso porque um dia achou seu caderninho do jardim da infância e viu como via a vida de uma maneira tão rabiscada, em borrões de alegria.
Ele levantou do cimento e contou para o Boca o que ele tinha pensado sobre tudo aquilo. O irmão era mais novo e ao mesmo tempo tão mais velho, tão cheio de ideias bonitas...
-Concordo irmão. Acho que é isso mesmo. Mas meu caso é grave: eu tenho saudade do que ainda nem aconteceu...
Taí um caso que só a avó poderia resolver:
-Meninos, saudade é uma palavra tão bonita. Tão cheia de significados...cada um sabe a saudade que sente e o quanto ela dói.
-Vó, o Boca tem saudade do que ele ainda nem viveu!
-É, acontece. A gente vê as coisas acontecendo e deseja que essas coisas aconteçam com a gente também. Mas tudo, tudo, tudo, tem o tempo certinho de acontecer. Entre o querer e o acontecer tem o tentar, o lutar, o batalhar, o não desistir. Aí a saudade entra, porque seu coração já desenhou seu futuro, mas o presente ainda não chegou. Seu coração sabe que vai acontecer, mas a realidade ainda não trouxe o que você quer.
Os três comeram o bolo feito pela avó, todos quietinhos e pensando nessas coisas sérias, que deveriam ser pensadas assim, em silêncio. E sabiam que teriam saudade daquele dia.

Eu tenho saudade do que não vivi também. E sempre que estou vivendo um momento bacana, já me projeto lá na frente e vem a dorzinha boa da saudade e eu fico pensando "um dia eu falarei que esse foi um momento bom que não vai mais voltar". O que é bom é saber que eu posso viver mais momentos como aquele. Viver para sentir saudade, porque sentir saudade é bom, significa que viveu e viveu bem, afinal, não se sente saudade de ser triste.
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