Guminha acordou diferente aquele dia, meio nervoso e apressado com a vida: olhou para o relógio que ainda estava sonolento, era cedinho. Formigou na cama, virou e revirou até escutar a mãe preparando o café e logo pulou dali, como um furacão varrendo tudo, falando como uma metralhadorazinha de palavras. O Boca, que divide o quarto com ele, acordou já zonzo com o falatório do irmão, mas bastou se olharem para todo aquele agito fazer sentido. Ambos sabiam que aquele dia seria "o dia".
Foram tomar café da manhã aos gritos, alegres e implorando para a mãe dizer onde estavam as roupas da sorte.
-Mãe, é hoje mãe! - disse o Guminha
-Calma filho, calma. É só um jogo.
-Como assim, só um jogo? É O JOGO!!!
- Eu sei meus filhos! Por isso estou fazendo tudo conforme a gente sempre faz! - disse a mãe, no seu sorriso de Sol, mostrando os pães cortados ao contrário.
Desde muito tempo eles tinha certas coisas a serem feitas em dias assim. Jogo é jogo, futebol era como um elo de alegria e gritos exagerados para eles. Estavam todos tensos, embora a mãe procurasse tornar as coisas mais fáceis. Mas a unha roída da mão direita denunciava que ela também estava agitadíssima para tudo começar. Ela também estava com aquela sensação geladinha na barriga, de medo que não é medo. Está aí algo de uma família bem brasileirinha: torcer pelo outro e ver seu coração batendo no corpo de outros onze. De ouvir o grito da torcida e sentir a alma arrepiar. De inventar que cada um tem um lugar certo para torcer, senão "dá azar". De gritar bem alto, contra ou a favor de uma jogada, de abraçar estranhos, de puxar papo com qualquer pessoa que torça para o mesmo time que o seu. Uma alegria redonda, bola que rola de um coração para outro. Um calor diferente, de torcer e vibrar.
Logo a avó chegou e foi envolvida por aquele clima. Ambas iam fazer o almoço de dia de jogo e os meninos foram brincar no campinho, narrando as jogadas que veriam e prevendo gols que seriam feitos. E o Senhor Tempo, esse danado que varia seus passos, insistia em não passar. Voltaram para casa, jogaram futebol de botão, bateram bafo, quebraram um vaso e nem era meio-dia ainda. Ligaram para o seu Jorge, que prometeu passar ali depois do almoço pois tinha uma surpresa para eles. Ufa, dava meia-noite não chegava a hora de almoçarem!
Ansiedade faz isso: querer que o agora pule direto para o daqui a pouco.
Almoçaram, do jeito que sempre faziam em dias assim. Comeram frango assado e tiraram sorte com o ossinho em forma de Y, pedindo coisas secretas que no final era o mesmo desejo: que o time deles ganhasse!
O Seu Jorge chegou para a sobremesa,(o espertinho adora os doces da mãe do meninos), trazendo com ele as fotos do primeiro jogo visto pelos três ( o pai e os meninos) no estádio. O Guminha e o Boca eram quase bebês e na foto estavam segurando a bandeira do time, como se fosse um manto. Sorriam o mesmo sorriso daquele momento.
-Meninos - disse o seu Jorge - hoje o ritual será quebrado.
-Como assim pai? A gente vai perder! Temos que mandar boas vibrações para o time!
Isso não é uma conversa lógica, mas a lógica sai correndo quando a emoção chega!
-Por quê? - eles estavam sem entender nadinha.
- Porque nós vamos para o estádio, todos nós!
Guminha e Boca se ajeitaram no banco de trás. Até a avó ia, mas num outro carro. Naquele estavam os meninos, o Jorge, o Marcelo ( que é irmão do Jorge, portanto tio dos meninos) e o Tuco, da sala do Guminha. Iam os pequenos atrás, olhando tudo, querendo comer o caminho para chegar mais rápido ao estádio. Viam pessoas felizes, andando em direção ao jogo, gritos soltos no ar, rojões que não paravam de estourar. Se fizessem força, talvez conseguissem agarrar aquela vibração toda. Era como se todas aquelas pessoas fossem amigas desde muito tempo e aquele momento fosse mágico. Era mágico. Dentro do coraçãozinho deles batia forte a certeza que nunca se esqueceriam dos detalhes: do tio sintonizando a estação de rádio certa para ouvir a escalação do time, dos bares lotados de homens- meninos, das bandeiras grandonas enfeitando tudo. Era uma festa enorme e eles eram convidados. Eles também faziam parte daquela alegria. Eles também eram daquela corrente.
O Jorge estava trêmulo, abraçado ao irmão. Era um momento único e seus filhos estavam com ele. Esta seria uma história para contarem em muitas festas da família. Essa era uma história para guardar no coração.
- Vamos, nossa entrada é por aqui.
Quando entraram no estádio, eles entenderam tudo. Nesse dia o Guminha teve a primeira percepção que o mundo era muito mais que sua casa, sua escola, seu bairro. Haviam outras pessoas e muitas delas eram felizes como ele e estavam ali, brincando e rindo juntos. O mundo do Guminha cresceu naquele dia.
Ao entrarem no estádio o Guminha sentia-se poderoso e tinha no peito a sensação de que tudo daria certo, uma soma de confiança com sexto sentido. Viu a torcida do seu time cantando junta, todinha, como se um maestro invisível regesse a todos e passou a cantar também. Gritavam, pulavam, ansiosas e felizes. No céu, aquela Lua Cheia linda assistindo a partida, brilhando forte e indicando que aquela noite era mesmo especial.Com a Lua vieram um montão de estrelinhas para brilharem também e ouvir aquele coro tão vibrante...
Por uns momentos Guminha parou de ouvir e de ver o que acontecia a seu redor e nem sentia o Boca cutucando seu braço para ver um ou outro detalhe. Entrou dentro de si, silencioso e espectador de suas lembranças.Na sua cabeça passou um filminho em que o pai, o tio, o irmão, os amigos estavam vivendo outras histórias em outros tempos e sentiu-se lotadinho de sentimentos bons, que só aumentavam a positividade e as boas vibrações que ele mandava para o time.
O Tuco o trouxe de volta de lá de dentro:
-Vai começar!!!
E soa o apito de início de jogo. Cada chute era acompanhado de gritos, palavras apreensivas, vontade de roer a unha toda! Parecia que havia uma muralha na frente do gol do adversário! Eles cantavam, apoiavam o time, comentavam entre si o que se passava em campo: parecia que o primeiro tempo durou 90 horas no lugar dos 45 minutos de sempre!
No intervalo o pai perguntou se os meninos queriam pipoca, cachorro-quente, refrigerante. Mas nada passava naquelas gargantas com grito de gol entalado!
-Pai, tem como apertar um botão pro agora ir pra daqui a pouco? Quero que o segundo tempo comece!!!
-Não meu filho, não tem. Mas vejam - disse chamando o Boca e o Tuco para perto de si - um chaveiro do nosso time para cada um! Quando eles estiverem atacando, apertem bem forte porque daí o gol acontece.
Começa o segundo tempo, todos muito apreensivos. Na cabeça deles pintou uma sombrinha escura de medo, de viver mais um tempo de jogo cheio de tensão.Eis que o time arrancou para o ataque! O Guminha apertou o chaveiro com tanta força que...
GOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOLLL
Olhou para o irmão e o abraçou tão forte, até serem levantados pelo pai e pelo tio Marcelo!
Gritavam o mais altão possível, pulavam, festejavam com aqueles desconhecidos tão próximos naquele instante mágico! Era uma alegria sem tamanho!
Mas ainda tinha muito, muito, muito jogo para acontecer...sem dúvida estavam mais relaxados, conversando mais, sorrindo fácil...
Do nada um lance improvável acontece: Guminha, Boca e Tuco se olharam e lembraram mais uma vez de apertar bem forte os chaveiros, como se aquele gesto ajudasse o jogador a correr mais rapidamente!
GOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOLLLLLLLL
Aquela bagunça feliz novamente!!! A torcida gritava, cheia de alegria e garra!
Fim do jogo, vitória do time. Não houve foto nesse dia. Também ninguém que estava com eles filmou nada. Mas se a gente perguntar, cada um sabe cada pedacinho dessa história. Era mais que qualquer registro que se possa manusear: era a história vivida por eles, marcadinha no coração de cada um. Era algo que eles contariam nas festas de família por anos. Era algo que um dia já velhinhos lembrariam, mesmo com a dificuldade do tempo passado. Era algo eternizado em 90 minutos.

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