A professora perguntou logo que a aula começou:
-Quem trouxe a autorização para dançar a quadrilha?
Logo um fila de crianças com papéis assinados pela mãe se formou pertinho da mesa dela. Uns marcavam um X no não, mas a grande maioria da turma ia dançar.
Guminha tinha pensando muito se queria ou não fazer parte da quadrilha. Era todo falador, mas na hora de dançar com uma garota era muito tatu na bolinha: tímido e sem jeito. E além de tudo tinha a Lili, mas ela era muito pequenina e a professora sempre formava par baseada no tamanho das crianças, nunca que dançariam juntos. Respirou fundo e foi falar com a professora:
-Eu não vou dançar, mas vou participar da quadrilha.
- Ué? Como?
-Eu pensei bem e quero ser o padre do casamento caipira!
Taí uma solução bem boa: participaria da brincadeira e não teria que ser par de ninguém. A professora gostou da ideia e logo começaram os ensaios. Sempre na hora de formar o túnel tinha brincadeira de mão. Sempre na hora do caracol todo mundo se enroscava e se perdia do par. Sempre na hora do "olha a chuva! - já passou" tinha uma trombada. Eles riam muito de tudo e ensaiar parecia mais legal que dançar no dia.
-Classe, esse ano nossa festa vai ser JULINA, porque será no nosso último dia de aula. Vai ter um monte de barraca bacana e cada mãe deve preparar um bolo para a festa.
Essas coisas de mãe dar bolo para a escola era algo tão comum e tão tradicional que todo mundo ficava feliz, porque as mães queriam fazer o seu ser o bolo mais gostoso da barraca de doce, o mais comentado e o que acabaria rapidinho.
No dia da festa estava um frio geladinho. Tudo começaria às 16h. Era uma delícia porque logo ficaria noite e as lanternas iriam enfeitar a festa e poderiam acender a fogueira. O Guminha foi criança num tempo em que as pessoas não se importavam com algumas coisas que deveriam - e depois isso aconteceu - se importar. Criança pulava fogueira, fazia balão e soltava, empinava pipa com cerol, brincava na enxurrada...
Chegaram na festa no horário combinado pela professora e foram brincar nas barracas: tinha da pesca, da bola na lata, do dado, de doce, de salgado...e o Boca até ganhou um correio-elegante!!! E secreto!
Aí chegou a hora da quadrilha da turma do Guminha: foi a maior palhaçada, ele confundiu as falas, mas fez isso de uma jeito tão engraçado que parecia combinado! E todo mundo amou, bateu palmas e disse que ele era talentoso!
Depois que a quadrilha terminou, a dona Maria deixou os meninos mais livres para brincarem, porque daí podia se desarrumar todo que já tinham tirado foto e se apresentado. E advinha se logo todo mundo não estava correndo pra lá pra cá, perdendo chapéu e borrando as pintinhas que as mães haviam desenhado nos rostos deles? Claro que toda essa correria era por causa da CADEIA. Os meninos mandavam prender uns aos outros e aí vinham os "policiais" para buscá-los e tinha que correr mesmo, porque depois só saia da cadeia pagando fiança. Aconteceu que num determinado momento a turma todinha do Guminha e do Boca estava presa, gritando e bagunçando! A cela, de bambu e barbante, não aguentou aquela rebelião de alegria e ploft! Caiu tudo no chão: a cadeia e as crianças! Era tudo motivo de riso e festa!
E naquela noite de estrelas, balões, fogueira e bombinhas estourando, eles ainda brincaram de bingo, de rifa e de "beijo, abraço e aperto de mão". Em noites assim o nosso coraçãozinho abre uma porta para o cheiro entrar: essa noite ficou ali, marcadinha com cheiro de quentão, pipoca, milho cozido, pólvora de bombinha e o som da sanfona misturado com o estalar da madeira queimando na fogueira. Uma mágica acontece cada vez que uma criança, seja criança-criança, criança-adulto ou criança-velhinho, olha para fotos tiradas nessas festas: o cheirinho vem correndo no nariz e o coração dá um sorriso bem grandão, tão grande que pula de lá e do nada a gente sorri. Um sorriso quente para lembrar essas noites geladas!


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