quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Guminha e as festas!


Era uma dessas festas bonitas, em que a família toda se reúne e faz bagunça junto, o Guminha estava cheio de alegria por ver todos juntos, felizes!!! 
Muitas vozes, muito barulho, risadas o tempo todo, piadinhas sem graça que , incrivelmente, faziam todo mundo rir, uns assuntos sérios que ninguém levou a sério na hora...aquele tio com suas histórias cativantes e aquela tia que insistia em lhe apertar as bochechas...as brincadeiras com os primos, que são mais divertidas porque é dia de festa e estão todos com roupa que não pode estragar e aí cai doce bem na camisa do mais manhoso!
A avó chamou toda a família e todos os amigos presentes para uma oração, todos juntos:
- Gostaria que cada um de vocês fizesse seus agradecimentos e seus pedidos para essa nova fase nas nossas vidas. Nada muda ou acontece se nós não batalharmos para isso! Peçam com o coração!
O Guminha estava com os olhinhos fechadinhos, rezando com o coração, do jeitinho que a avó pediu, quando notou que ele queria que momentos como aquele, de festa e união, não durassem do Natal ao Ano Novo e sim do Ano Novo ao Natal e mais uma semana! Aí ele abriu os olhos e deu um baita sorrisão ao ver todos ali, ao seu lado e só parou de sorrir quando escutou sua própria barriguinha roncar!
-Vó! Faz um pratãozão? Daqueles que só a senhora sabe fazer? Pode por tudo e bastante! Igual eu quero a vida; tudo e bastante, sempre!
 

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Guminha e a conectividade


Uma temporada bem sucedida no circo e a casa do Guminha e do Boca ganhou alguns mimos. Um reparo ali, uma cortina nova ali, trocaram a cor do portão e a geladeira por uma nova, coisas que precisavam ser feitas e que nunca eram, porque somadas significavam um aperto no orçamento.
-Maria, vou colocar TV a cabo.
-Como assim Jorge? E depois, tem assinatura...
-É por minha conta, acho que vocês vão gostar bastante.
Logo o moço da operadora veio, furou-martelou-passou cabo e pronto: tinham canais que nem pensavam existir. De fato, gostaram mesmo. Menos o Guminha. 
O Guminha não gostou: enlouqueceu, viciou, pirou na tela que gritava novidades, desenhos, documentários, musicais.Mal chegava da escola, queria até comer em frente a TV. Respondia monossilabicamente, nem olhava nos olhos de quem ele estava conversando. Não conversava.
-Guminha, vem fazer dever!
-Depois que acabar esse desenho. 
-Guminha, vamos passear!
-Não posso, estou vendo um filme inédito, tá no meio.
Devagar o menino até perdeu a cor de rua e brincadeira e ficou um pouco verde. De verdade: verde-telinha!
A mãe argumentou, o Boca implorou a presença do irmão nas folias e nada. Seu Jorge o chamou para uma conversa, daquelas sérias, com o tom baixo e voz firme:
- Guminha,tudo tem limite. TV é legal, a informação vem toda mastigadinha, nossa cabeça às vezes nem precisa pensar. Tem desenho, tem comédia, é sim uma janela para o mundo. Mas você é mais que isso e está perdendo tanta coisa: você é o menino que corre e vibra com o vento no rosto. Quando chove e você e seu irmão soltam barquinhos na enxurrada, vocês  sentem o gelinho da chuva e o cheiro de terra molhada. Quando você lê seus livros, você cria coisas que nenhum programa de TV jamais mostrou...TV te faz companhia, mas não te abraça, não te aperta e afofa. Você é do Sol, da rua, da brincadeira, da pipa e do pião...
Enquanto o pai ia falando, o Guminha ia se tocando de tanta coisa boa que dava para fazer e ele tinha deixado completamente de lado por conta de ter ficado fissurado pela novidade. A conversa fluiu por tanto tempo e emendou com a jantinha quentinha servida pela mãe, pelo jogo de cartas em que o Boca sempre ganhava e o maravilhoso bolo de chocolate da dona Linda de sobremesa que ninguém notou que a TV ficou desligada. Estavam ligados uns nos outros.

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Guminha e a festa de fim de ano na escola


-Classe, semana que vem a gente vai fazer uma festa de final de ano da turma. Os meninos trazem doce e as meninas salgado. A diretora vai comprar suco e refrigerante!
Assim que a professora deu o recado, todos deram aquele grito típico que vem depois de um recado feliz em sala de aula:
-EEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEE!!!!!!!!!!!!!!
O Guminha gritou junto e se bobear foi um dos que gritou mais alto. Mas assim que sossegou e voltou a fazer a tarefa, sentiu um negócio muito ruim. Uma saudade antecipada de todos ali, juntos.
Olhou para a professora e de repente ela era mais doce e mais bonita que nunca: como seria a professora do próximo ano? O Eiras ali, tão perto, era só dar um sinal e os dois iam juntos apontar o lápis para poder conversar um pouquinho. A Lili, O Tuco, o Garfo...eles sempre faziam trabalhos juntos e estudavam juntos para as provas. A fila deles era mais legal na hora de entrada e a turma deles a mais animada na hora do recreio. Os teatros mais criativos, as coreografias mais inovadoras, as aprontadas mais incríveis. Sempre juntos, sempre unidos. E agora isso, o fim. 
Não saberiam se estudariam juntos de novo, se a nova turma seria como a atual. Se sentariam perto de pessoas bacanas ou encostados em gente que reclama de tudo. Não sabiam nada e só o tempo diria. No ano seguinte o primeiro dia de aula responderia a essas perguntas.
O fim. O fim nem tinha chegado e já se instalava no coração do menino. Estavam ali, rindo de uma piada contada por alguém. Estavam fazendo a mesma tarefa e copiando a mesma rotina da lousa. Na hora de ir embora, fariam fila juntos e todos ganhariam um beijo de professora e um sorriso, seguido de um "até amanhã". Mas para cada amanhã o fim chegaria mais rápido. Queria ficar preso naquele agora.
De repente o Guminha era um velho, preso no corpo de um menino, a contemplar seu passado que era presente. Os olhos lotaram de lágrimas gordas e um nó bem apertado visitou a garganta dele. Contemplou todos como quem contempla uma fotografia e para cada rosto, mil lembranças!
Sentiu um cutucão: bilhete da Lili chegando:
"Guminha: minha mãe é fã de um poeta chamado Vinícius de Moraes e eu copiei isso no meu caderno: "Mesmo que as pessoas mudem e suas vidas se reorganizem, os amigos devem ser amigos para sempre, mesmo que não tenham nada em comum, somente compartilhar as mesmas recordações."
Vi sua lágrima gorda se escondendo. Um beijo, Lili"

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Guminha em: que cor o cheiro tem? Qual o gosto da saudade?


Um dia, fora do tempo, o Guminha cresceu. Já homem e de barba no rosto, passou na frente de um clube perto da casa de sua infância. A calçada tinha as mesmas pedrinhas brancas e pretas dispostas formando um desenho antigo. Na portaria, um homem bem velhinho lia o jornal.
-Oi, eu era sócio quando eu era criança. Posso entrar?
- Poder, poder não pode. Mas vai lá. Só não pode demorar.
Era só pra ser uma ida ao mercado do bairro da mãe e de repente, ao passar por ali, foi transportado para um outro mundo, um mundo que sempre existiria no seu coração. E agora estava ali.
Desceu a rampa ao lado do salão social e depois do pedacinho escuro estava na parte das piscinas. O mesmo azul dos azulejos das três piscinas, o trampolim com grades brancas, o parquinho de brinquedos coloridos. O bar ao lado da piscina das crianças, com sua mesa de sinuca e os salgados no forno o jogou com tudo para os dias de Sol, gritaria e infância. Dias em que corria em volta da piscina sem medo de tomar um escorregão e se machucar. Dias em que o rádio do clube tocava as músicas de sucesso e ele queria ser como a moçada que frequentava ali e  combinava sair para dançar nos sábados à noite. Que ele não se importava com buraco de ozônio, queimaduras e envelhecimento da pele: ele chegava quando a piscina abria e só partia quando ela era fechada. E a fome era maior que tudo! Depois do banho, com os olhos vermelhos do contato com o cloro por longos períodos, se juntava com os amigos para inteirarem uma coxinha com refri e um sorvete amigo para a volta para casa. Ia e voltava sozinho, e raramente a mãe aparecia com seu maiô preto. Eram dias de sol, eram dias de alegria e preocupação zero. Não resistiu:
-Moço, uma coxinha e um refri, por favor. E um sorvete, pra volta.

terça-feira, 6 de novembro de 2012

guminha e os heróis

O Guminha e o Boca estavam brincando no quintal, montando pistas para os carrinhos deles. Concentrados naquela tarefa, conversavam enquanto mais uma curva perigosa era construída ou uma reta poderosa se formava:
- Boca...se eu fosse um super herói, que super herói eu seria?
-A Mulher Maravilha! Hahahahahaha - zombou o irmão.
-Não Boca, fala de verdade...
-Ah Guma! Nunca pensei.
-Então me ajuda a pensar.
E pensaram muito. Um a um falaram dos heróis dos quadrinhos que conheciam e das identidades secretas. De Batman e sua superação pessoal e da luta contra o mal em Gotham City; de Superman e sua namorada Louis Lane, do Homem de Pedra, dos Incríveis...
- Queria era ter o Anel do Lanterna Verde!
-Não, pensa você com os poderes do Aquaman?
- E tipo Super Mario?
-Mas o ele nem é herói.
-Claro que é, ele vai salvar a Princesa!
- Eu gosto do Hulk, acho você parecido com ele. Quando fica bravo, vira outra pessoa!
Na verdade nenhum super heróis se encaixava totalmente na descrição do Guminha. Ele até ficou chateado e quis mudar de assunto, enfileirando os carro para começar a corrida, já que a pista tinha ficado pronta, mas o Boca o interrompeu:
- Guminha, você é meu herói. De verdade. Sem capa, sem uniforme especial, sem identidade secreta. Você está comigo quando eu rio e quando eu choro. Você me dá a mão quando eu tenho medo. Você cuida de mim quando a mamãe pede. Me ajuda a fazer aquele dever bem difícil e até pinta meu desenho quando eu estou com preguiça. Eu adoro quando a gente conversa antes de dormir e quando a gente brinca e parece que vai parar em outro mundo. Quando você me defende e até quando você me dá uma bronca, que eu sei que é para eu me tornar um menino mais legal. Não tem no mundo um super herói com poderes melhores que o seu. Para ser herói não precisa estar no gibi: basta ser como você é.
     *-*





Gifs animados Spiderman




terça-feira, 23 de outubro de 2012

Guminha e a prova de História


Dia de prova. A sala toda com os olhos espertos na professora, tentando adivinhar se iria ser fácil ou difícil. Ela, muito tranquila, disse:
-Para quem estudou está fácil. - e sorriu.
Claro que para quem estudou está fácil. E para quem está com a cabeça em outro lugar? Tenso.
-Vamos separar as mesinhas. Quero letra caprichada, organização nas respostas. Confio na capacidade de vocês.
Pronto, agora estava tudo perdido! Além de saber a matéria, tinha que fazer letra bonita! E essa jogada da professora de dizer que confiava, dava até uma dor no estômago!
Guminha recebeu o teste dele, colocou nome, número, data e a caneta paralisou. Nada. Lia as questões e nenhuma delas parecia fazer sentido. Lembrava vagamente dos nomes ali escritos, das batalhas e alguns lugares mencionados, mas responder qualquer pergunta era tarefa impossível. Fez força, tentou relembrar das aulas...não era possível, tinha estudado! 
Pelo canto do olho via todo mundo entregando a prova, o tempo passando e ele ali, sem conseguir fazer nadinha. Sensação horrível, que só piorou quando ele entregou a prova na mão da professora e explicou o que havia acontecido. 
- Calma, semana que vem tem outra. Tenho certeza que você sabe esse conteúdo. Te deu um branco, não foi?
Sim, era uma coisa ruim, tentar lembrar e não conseguir. 
À tarde os meninos da turma e a Lili foram na casa dele, fariam um trabalho em grupo. Nem isso animou muito o Guminha, que estava com medo de ser esquecido para sempre.
A tarde passou rápido e no fim do trabalho eles podiam brincar, antes de ir embora. Chegou dona Linda trazendo bolo para a molecada se lambuzar de cobertura de chocolate e algo surpreendente! A câmera fotográfica dela!
Essa história aconteceu num tempo em que foto era raridade: quando alguém fazia aniversário, comprava um filme e colocava na máquina. Aí economizava fotos, porque os filmes eram de 12 ou 24 poses, só quem era muito privilegiado comprava filme de 36 quadros. No aniversário era sempre assim: foto da mesa pronta, foto do aniversariante com os pais, foto do aniversariante com os padrinhos e umas fotos da hora do parabéns. Se alguém saia desfavorecido, mastigando ou com a cara torta, só ia saber na hora que revelava o filme, o que às vezes demorava um pouco. Aí colocava as fotos num álbum e saia mostrando pessoalmente, porque rede social era coisa inimaginável.
Aconteceu que a dona Linda tinha feito aniversário e embora não fosse mais criança, quis tirar fotos do jeitinho que todo mundo tira e agora precisava acabar o filme para poder mandar revelá-lo.
-Criançada, vocês querem tirar fotos?
-Ah vó, tô chato hoje - respondeu o Guminha. - Tô com medo de ficar esquecido para sempre.
-Ah Guminha, você tão novo? Não tem como! Eu que estou mais velha poderia ter esse medinho.
-E não tem? - questionou o Boca
-Não. Eu tenho as minhas fotos que me recordam de tantas coisas boas. Tenho amigos que me contam as histórias que nós vivemos e um ajuda o outro a lembrar se faltar um pedacinho. A nossa história a gente escreve todo dia, não tem como dar branco. E se der, a gente pinta de colorido.



terça-feira, 16 de outubro de 2012

Guminha e a excursão da escola


Nada além do normal naquele dia incomum, tinha feito tanta coisa durante a semana que nem viu os dias passarem e a a data da excursão chegar no calendário:era no dia seguinte, de manhãzinha. 
Nem tinha lembrado de pedir pra mãe pra comprar coisas gostosas para comer durante o passeio, mas como mãe está sempre a frente ela já havia preparado  um verdadeiro banquete dos sonhos para o menino, com direito a bolo de chocolate e tudo..
Os dias tinham passado rápido desde que a professora entregou o bilhete da excursão para a turma, as horas que antecediam o passeio davam impressão de demorar mais do que fim de jogo quando seu time tá ganhando por um gol de diferença e tá tocando um sufoco do time adversário!
Arrumou a mochila,arrumou de novo, de novo, de novo, planejou o passo a passo  e nada da hora passar!
Foi conversar com o Boca, que iria com a sala dele no mesmo ônibus da sala do Guminha, pra ver o que ele esperava do passeio e notou que o irmão estava na mesma sintonia que ele.. Aquele friozinho na barriga, aquela curiosidade de como ia ser, os rituais pro Sol acompanhar a viagem, pra chuva ficar bem longe, pro vento ser aquele que refresca não o que esfria... quis ligar para todos os amigos, mas a dona Maria não deixou: pensa ele conversando todos os detalhes do passeio com a turma toda?
O bacana destas excursões é ver pessoas tão diferentes fazendo coisas iguais juntas, se divertindo juntas com coisas sem sentido, rindo de coisas sem tanta graça, brincando  de coisas que você não quer brincar só pra todo mundo brincar junto e se divertir com isso, rir do mau humor do outro e ficar feliz com a alegria daquela menina da turma que você nem conversa tanto, ver tudo dando quase errado mas no fim mostrando que tudo dá certo e que o vale são momentos como esses que ficam na memória!
 Sentir que aquilo tudo vai ficar pra sempre ( pelo menos na sua memória) , ficar feliz de lembrar o que passou e que você viveu isso, com os melhores e diferentes amigos que a vida pode te dar e torcer pra que momentos assim se perpetuem não só em fotos tiradas no passeio, mas no coração de cada um que esteve presente.
O passeio foi muito legal, como sempre os passeios com a escola são. Mas nada se comparou ao tanto que bagunçaram e riram no ônibus na volta. Todo mundo muito engraçado, o Garfo comendo um montão, o Boca imitando as pessoas, o Eiras mexendo com as pessoas na rua, que respondiam alegremente diante daquele monte de crianças tão entusiasmadas. A Lili deu um jeito de se sentar com o Guminha. Um jeito que as meninas desde muito novas sabem dar. E o Guminha, como os meninos de qualquer idade, não entendeu muito bem a razão daquilo ( e se entendeu deu um jeito de fazer de conta que não tinha entendido nada) e fez a Lili bagunçar junto.
Naquela noite,antes de dormir o Guminha agradeceu novamente a Deus por todas a pessoas boas que Ele colocou no seu caminho e pelos momentos especiais que ele passa, passou e passaria com todos eles.


segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Guminha e o carrinho de rolimã


-Boca! Olha o que eu achei!
-Tábuas!!! Lisinhas!!!
Só quem é ou foi menino de pé no chão e muita liberdade para saber o que isso significa. Com tábua, um menino assim pode contruir o mundo!
-Carrinho de rolimã?
-Claroooooooooooooooo!!!
E nesse claro, saíram rapidinho em direção à oficina do seu Tico, pedir o que faltava. Ele era muito bacana, sempre deixava umas peças sobrando para a molecada da rua. Vai ver seu Tico também era menino de pé no chão, só que tinha crescido.
Passaram a tarde lixando, martelando, ajustando o carrinho. Pintaram com tinta vermelha, que tinha numa latinha perdida na casa do Eiras e grudaram uns números que o Tuco trouxe. A Lili só olhava, tinha medo de martelar o dedo. 
Tudo pronto, combinaram que revezariam o uso do carrinho: uma vez na descida cada um, sozinho. Depois iriam em duplas, depois...tinha tanto depois e tantas regras inventadas e não escritas, como só quem brincou na rua sabe. Em brincadeira de rua, as regras foram feitas para serem modificadas.
Menino de pé no chão não tem medo de se ralar. De se cortar. De dar com a cara no muro. Menino não tem medo de nada. Só de Merthiolate. Como o Guminha, que numa curva mal feita caiu de lado, ralou o braço todinho. Segurou o choro, lavou o machucado com a ajuda do irmão e foi avisar a mãe, já prevendo o pior:
-Ralei.
-Lavou?
-Lavei.
-Com sabão, direitinho?
-É.
-Vou passar Merthiolate.
-Não, mãe. Passa não.
-Filho, precisa, senão não sara.
-Do vermelho ou do branco?
-Do branco.
-Não, tudo menos o brancoooooooooooo, o branco ardeeeeee!!!
-Arde, mas sara. E não pode soprar depois que passa, porque os bichinhos que moram no ar e na boca vão parar em cima do machucado.
Só que é ou foi menino de pé no chão sabe o que é andar de carrinho de rolimã.
Só que é ou foi menino de pé no chão sabe o que é o Merthiolate arder.


Tem carrinho para vender hoje em dia, mas o legal é fazer o seu próprio carrinho...Não se sabe ao certo a história do mais radical dos brinquedos das crianças da década de 70 e 80 da região sudeste do Brasil. Pode-se dizer que os primeiros exemplares foram construídos em cidades como São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte, no final da décadas de 60, começo da década de 70. Explica-se. O principal material, as rodas, eram rolamentos conseguidos em oficinas de manutenção de automóveis. As oficinas em questão davam manutenção aos carros daquela época, os Chevrolets Belair, os Fordões 50 51, os Pontiacs os Mercuries os Dogdes e os sofisticados Oldsmobiles, todos carros importados.
Os rolimãs bons para fazer os carrinhos vinham da transmissão destes carrões americanos. Mas também qualquer carro nacional também descartavam estas peças, e oficina para consertar as antigas latas velhas que zero Kilometro já apresentavam problemas com ruas esburacadas e falta de via apropriadas para o trafego de 
veículos.
O maior problema era conseguir as rolimãs, sem pagar nada, simplesmente pedindo e as vezes executando pequenos serviços das oficinas, na maioria das vezes de limpeza para obter o prêmio.
Engraçado que carrinho de rolimã era brinquedo dos meninos mais pobres ou com menos condições que não podiam ter uma biclicleta, mas tornou-se o pai, hoje avô dos brinquedos radicais no Brasil.
Os carrinhos de rolimã eram levados as ladeiras asfaltadas e que igualmente somente se popularizaram com a urbanização das cidades igualmente na época de 60 e 70, o que novamente confirma a época aproximada do surgimento deste brinquedo.

 Vá à uma loja de ferragens e compre pinho, pense no seu tamanho, alto, baixo, gordinho.. e peça a tabua central.




Com a ajuda de alguém mais responsável que você, serre a tábua para fazer a frente do carrinho (desenho 1).



 Faça um furo na tábua e outro na ripa maior (desenho 2) e, com uma lâmina, arredonde as pontas das ripas na largura dos rolimãs (desenho 3).







Encaixe os rolimãs e coloque os calços feitos com as sobras da madeira (desenho 4).



Lixe tudo. Pinte as ripas e a tábua. Deixe secar. Pregue a ripa menor na parte de trás da tábua (desenho 5).



Fixe a ripa maior da parte da frente com o parafuso e a porca (desenho 6).



Teste o seu carrinho num lugar seguro, longe de automóveis e ladeiras. Não esqueça de usar capacete, luvas e joelheiras.Vá sem equipamento de segurança para você se ralar todo e mostrar as cicatrizes para todo mundo!!!


segunda-feira, 24 de setembro de 2012

guminha em: a inauguração do supermercado



- Filho, vamos numa festa?
Era Jorge chegando fazendo barulho, louco para dar um abraço no Guminha!
-Festa? Agora cedo?
- É inauguração de um supermercado grandão. Vamos?
Claro que ele ia, nem que fosse de uma quitandinha bem pequenininha. O Guminha foi logo procurar o Boca, mas aí lembrou que ele tinha ido dormir na casa do Eiras e não voltaria.
- Mas vai só a gente?
-É, sua mãe contou que o Boca não está. Quer ir mesmo assim?
Era complicado. Metade dele queria e outra ficava mal pelo fato do irmão não ir junto. Pensou logo 3 segundos e decidiu.
-Vou sim, pai. O Boca está brincando, ele não vai ficar triste.
Se arrumou rapidinho, pediu benção para a Dona Maria e saiu feliz, de mão dada com o pai naquele sábado de manhã.
Quando chegaram no estacionamento do supermercado novo, o Guminha não acreditou no que viu: muitos brinquedos grandões, alguns daqueles infláveis, palhaços, música...e estava lo-ta-do! 
Logo foram para a fila do algodão doce. E depois do sorvete. E depois das balas. E depois das bexigas. E então o Guminha se soltou do pai e foi brincar. E brincou muito!
Primeiro foi no pula-pula. Era bem fofo, caía e ria muito. Sabe quando a gente ri e fica mole? Assim. Ria de ficar mole. Depois foi nuns brinquedos eletrônicos que ficariam para sempre no mercado, mas que depois da inauguração precisariam de fichas para serem usados: naquela manhã não, era tudo liberado! O Jorge, de longe, observava o filho, acenava feliz.
Aí o Guminha foi num brinquedo que de longe parecia muito legal: as crianças deviam andar por um cavalete e então rolar para um colchão. Avisou o pai e foi para a fila. Para marcar onde Jorge estava, olhou em volta e o viu conversando com um homem bem alto. "São amigos, se eu olhar o homem grandão vou saber que meu pai está junto". Depois de brincar duas vezes, notou que o que ele e o Boca faziam nos sofás da sala de casa era mais legal, decidiu trocar de brincadeira. Certificou-se de olhar o homem grandão e mudou de brinquedo, agora um futebol de sabão, muito mais legal do que todos os brinquedos que tinha ido até então. De vez em quando olhava para onde estavam os adultos e logo via o homem grandão, voltando logo à brincadeira. Brincou demais, demais, demais!
Eis que a dona Fome roncou e o Guminha decidiu chamar o pai para irem para casa. Foi até onde estava o homem grandão e o Jorge não estava junto.
- Oi, cadê meu pai?
-Não sei do seu pai não, menino.
- Ele é seu amigo, estava aqui com o senhor.
-Não tinha amigo meu comigo.
-Mas eu vi vocês conversando...
Não era amigo do pai, não sabia o nome dele e é claro que também não sabia onde ele estava. Um nó doído apertou a garganta do Guminha e as lágrimas começaram  a pular dos olhinhos dele.
Se viu sozinho, sozinho de verdade, pela primeira vez na vida. Era um vazio que nunca tinha sentido. Tanta gente em volta e ele sem a pessoa que ele mais queria naquele momento. Deu vontade de gritar, sentar e chorar como quando era um bebê. "Se o Boca estivesse comigo tenho certeza que ele daria um jeito nisso", pensou a cabeça enquanto as pernas procuravam por Jorge. Nunca tinha sentido aquela dor, uma dor que não era em lugar nenhum e ao mesmo tempo ocupava todo seu corpinho de criança. Na verdade a dor era maior que ele.
Enquanto andava pela festa pensou coisas muito ruins, que meninos de idade nenhuma deveriam pensar. Pensou que naquele momento a mãe e o Boca deveriam estar juntos em casa, esperando por ele e que ele nunca mais voltaria. Pensou no pai aflito ao procurá-lo, sentindo talvez a mesma dor grandona. Pensou na escola, nos amigos, na avó e teve uma saudade antecipada de tudo. Se viu perdido para sempre.
Mas os meninos têm um Anjinho sempre cuidando e o Anjinho do Guminha deve ter soprado bem fraquinho no ouvido dele, só pra ele poder ouvir, uma ideia para achar o pai: procurou o palanque da onde apresentavam a festa e de lá do fundo da sua dor saiu uma força muito maior para ajudá-lo a vencer qualquer barulho e chamar o rapazinho que estava com o microfone. Chamou, chamou, chamou até ser ouvido. Explicou para o moço o que estava acontecendo e o rapaz interrompeu a festa:
-O Bolinha tá aqui perdido - disse ele.
-Não, Guminha!
-O Babinha é que está perdido - errou mais uma vez.
-Não moço, Guminha! - impacientou-se o menino.
- O ...
- Guminha, meu filho, desce daí!
Era Jorge. Era o que ele mais queria. O abraço do pai, bem forte, de estralar os ossos e erguer os pés do chão. O melhor abraço que ele poderia receber naquele momento.




quinta-feira, 13 de setembro de 2012

guminha e o dia em que a vida da dona maria mudou


-Mãe, me conta como eu nasci?
Estavam no quintal, dona Maria estendendo as roupas e o Guminha ia entregando os prendedores. Ela parou, olhou bem para o rosto do menino:
-Nasceu lindo!
-Não mãe, a história, como foi...é isso que eu quero saber.
Estava um ventinho bom, as roupas já colocadas para secar roçando a pele do Guminha, aquele geladinho bom e perfumado de amaciante e sabão de roupa. Cheiro de cuidado.
-Vou terminar aqui e te conto.
-Ah mãe, mas vai contar mesmo?
- Vou sim. Pode acreditar.
Era o tipo de pergunta especial, diferente das perguntas cotidianas. 
"Mãe, onde está meu chinelo?"
"Mãe o que vai ter de almoço?"
"Mãe, que horas são no Japão?"
"Mãe, você gosta mais do Boca ou de mim?"
Era para ser respondida devagar, para saborear a resposta.
Dona Maria sentou, pegou um café fresquinho para ela e chamou o Guminha para comer bolo com suco e ouvir a história:
-Tem dia que acorda mais especial que os demais. Nesses dias, meu filho, o Sol brilha mais forte, o vento refresca diferente, a água está mais gostosa. Em dias assim coisas importantes acontecem...
Só de ouvir o comecinho, a boca do Guminha escancarou um sorriso.
Dona Maria continuou:
- Você nasceu num dia assim. Era Sol, era vento, era céu azul, azul, azul, azul. Eu não tive medo, não tive nada ruim. Era só ansiedade e alegria, Queria ver logo seu rostinho, poder te abraçar...A gente foi para o hospital e logo um foi avisando para o outro, parecia uma mágica: todo mundo foi adivinhando que você estava chegando e foi todo mundo indo para o hospital, que logo virou festa.
- Todo mundo?
-É filho, cada pessoa que sabia a notícia ia para lá torcer para dar tudo certo! E a mamãe ganhou tantas flores, bilhetinhos...e foi demorando, demorando pra você nascer...
-Demorou muito?
-Muito, muito não. Mas eu queria assim, uma mágica e plim, você estar no meu colo. Foi a primeira vez que eu fui corajosa de verdade. Não sabia direito o que estava fazendo e mesmo assim tinha toda a certeza que saberia fazer. Descobri que conseguiria encarar o mundo por você, lutar todos os dias para a gente viver bem, feliz. E um chorinho veio cantar no meu ouvido. Era seu. Era você.
-Você gostou?
- Se eu gostei? Foi como se eu pudesse voar, nadar, correr, pular e tomar uma montanha de sorvete tudo ao mesmo tempo. Era seu rostinho que eu tinha sonhado tanto. Era você no meu colo. Era a gente junto.



terça-feira, 4 de setembro de 2012

Guminha, Boca, Dona Maria e a viagem de avião


Da apresentação do Boca eles foram direto para o aeroporto.Os meninos não acreditavam no que viam, estavam pasmos diante das aeronaves na pista, das pessoas indo e vindo, dos pilotos passando apressadamente. 
Se cutucavam, mostravam coisas, mostravam pessoas falando outras línguas, mostravam malas coloridas, mostravam, mostravam, mostravam...era como se eles se sentissem num pedaço imaginado do globo terrestre, uma terra que não era de ninguém e ao mesmo tempo era de todo mundo.
Esqueceram da história de quem se sentaria na janelinha primeiro e por quanto tempo. Esqueceram o medo de voar a primeira vez. Saborearam estar ali. Viram as lojas. Comeram um lanche. Fizeram hora em meio aquele pedaço do mundo que permitia o ir e vir para muitos lugares. E pensaram em ser grande um dia e viajar bastante. E se tocaram que eram pequenos e que viajariam bastante. E se tocaram que o alto-falante chamava o voo deles. Era hora.
Deu um gelão na barriga, mas um gelão bem grande! E se o homem da entrada dissesse que as passagens não valiam? E se eles entrassem no avião e tivessem esquecido a mãe lá fora? Claro que nada disso aconteceu e o gelão foi embora assim que sentaram e afivelaram os cintos. E voltou muito forte quando ouviram o zunido da turbina, acelerando, o avião correndo até começar a subir e a sensação de terem comido borboletas grudar no coração dos meninos.
Depois relaxaram, começaram a rir das nuvens formando um tapete branco, das casinhas pequenininhas lá embaixo. E esqueceram de muitas coisas ruins que mesmo crianças pensam. E viram a mãe sorrindo feliz seu sorriso de Sol.
A viagem foi linda. Linda mesmo. De fazerem muitas coisas juntos. De andarem de bicicleta os três. De jogarem Uno à noite. De irem à praia e depois dar um mergulho bom na piscina. De não fazerem nada. De fazerem tudo. Estavam juntos e isso bastava.


domingo, 19 de agosto de 2012

Guminha e Boca e o compromisso antes da viagem!


Antes de viajarem os meninos tinham ainda um outro compromisso. Na verdade o compromisso era do Boca, mas tinha hora que eles pareciam grudados: claro que o Guminha ia estar presente na apresentação de teatro do irmão.
O Boca estava apreensivo: além da ansiedade da viagem tinha um textão gigante pra decorar e as palavras pareciam batata-quente na boquinha do menino. Dançavam complicadas, enrolando a língua na hora de dizer sua fala.
-Irmão, eu te ajudo. Dá o papel que eu vou lendo as falas dos outros e você as suas. Daí você treina.
Parecia uma grande bondade da parte do Guminha e até era um pouquinho sim. Mas o que ele queria mesmo era fazer parte daquele momento de uma forma bacana e além disso enganar o tempo para ele passar mais rápido.
- Feito!
E ensaiaram. Ensaiaram. Ensaiaram de novo. E mais uma vez. As palavras começaram a se ajeitar e sair como deveriam, na hora certinha, do jeito certinho. O Boca é muito determinado e gosta de fazer as coisas direitinho.
No domigo cedo deixaram as malas prontinhas na sala e saíram cedinho para apresentação. O Boca já foi caracterizado para seu papel e tiraram uma foto bacana de todos juntos antes de entrarem no carro do Jorge: dona Maria, Guminha, Boca, dona Linda e o Jorge esticando a mão bastantão e virando a máquina ao contrário para poder sair também (sim, a máquina tem disparador automático; não, Jorge não sabe programá-lo).
No carro, foram quietos, pensando em coisas que pensamos num passeio de carro no domingo cedo. Num determinado momento o Guminha sentiu o Boca apertar a mão dele e dizer, muito sinceramente:
-Obrigado. Se não fosse você eu ia estar muito nervoso.
Não tinha nem o que responder, nem nada. São coisas naturais entre pessoas que se gostam.
Teatro cheio de alunos de outras turmas e mães e pais felizes de verem seus filhos no palco. Primeiro uma menina tocou flauta, toda desafinada, mas mesmo assim todo mundo bateu palma. Aí a professora do Boca anunciou a peça.
Quando abriram as cortinas, o Jorge começou a tirar tanta foto que se colocasse uma do lado da outra formava um filme engraçado, meio errado. E o Boca fez bonito: falou tudo, tudo certinho como combinado. Não errou nada, nadinha e ainda ajudou, falando bem baixinho o que deveria ser dito, dois meninos e uma menina numa cena. Foi muito bacana! No final todos aplaudiram, mas agora era de verdade, não como quando aplaudiram a garota da flauta. Foi em pé e dando nuns gritos bem altos!
A família foi toda abraçar o Boca, dar parabéns pela atuação e por ter se saído tão bem diante de tanta gente. O Guminha esqueceu de levantar da cadeira...ficou lá pensando, orgulhoso do irmão que tem, por ser perfeito, por ser quem é.
Tem gente que considera um amigo como um irmão. A sorte do Guminha e ter um irmão-amigo.


Coincidência na área:  hoje, dia 19 de agosto, é Dia do Ator!
Parabéns a todos eles que tornam histórias fantásticas num pedacinho do nosso cotidiano! 
O post vai especialmente para o Aislan Merice, que é ator e tem muitos amigos-irmãos!

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Guminha em: viajante, teu caminho se faz ao viajar!


A mãe chegou com cara de arte naquela tarde. O sorrisinho ali, querendo fugir dos olhos e ir para a boca escancarar a alegria não dava para disfarçar. Ela havia planejado uma surpresa, mas não aguentou fazer suspense:
-Meus filhos, nós vamos viajar!
- Pra onde? Pra onde?
- É bem longe. Vamos no domingo. E vamos de avião!
- Jura mãe? De avião??? - perguntou o Boca.
Era a melhor surpresa em muito tempo! Viajar os três juntos e além da viagem a curtição de irem voando!!!
Logo a casa se encheu daquele ar de festa que antecede viagens bacanas!
A mãe pegou as malas lá no altão do armário, passou um pano e começou a planejar o que levariam, fazer listinha do que faltava e entre uma camiseta e outra que ia para dentro da mala, expectativas e planos eram colocados também.
Guminha às vezes ficava quieto, parava e pensava. Pensava não: fazia trato com Deus, por dias ensolarados na praia de longe que iria conhecer. Trocava dias de sol por tardes de estudo quando voltasse. E pediu para ver um anjo, sem se dar conta que o maior anjo Deus tinha dado a ele como mãe!
-Não lota muito a minha mala, mãe. -pediu. - Tem que caber meu carrinho da sorte. 
- E meu travesseirinho - disse o Boca.
- Meninos, vou dar um jeitinho e vai caber tudinho. Vai caber até o que vamos comprar lá!
Sim. Comprariam coisas. Veriam lugares. Comeriam comidinhas diferentes. Beberiam sucos de nomes engraçados. Tirariam fotos juntos, fotos de passeios que fariam, fotos até das ruas por onde andariam. Mas o melhor viria não na mala: viria nas lembranças e no coração de cada um deles.
Sim, eles voltariam cheios de coisas boas, histórias engraçadas.
Não, eles ainda não se davam conta disso.
Dona Maria tinha vivido um pouquinho mais e sabia que essa viagem seria eterna. Não porque duraria muitos dias, mas porque se lembrariam dela para sempre!




***Para onde eles foram e que aventuras viveram você saberá no próximo post!***

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Guminha em: figurinha repetida não completa álbum!


Há pessoas que dizemos ter boa sorte. Há outros nomes também, como "ter estrela". "ter o bumbum virado para a Lua", "ter luz"...tem muito nome diferente para dizer a mesma coisa, traduzir momentos em que não esperávamos nadinha e pronto: a gente ganha um presente da vida!
Você tá lá, entediado, arrumando o quarto e pronto: o gibi que você julgava perdido para o nunca mais estava embaixo da cama e você fica feliz com isso. Você tá apertando o controle remoto como se fosse um joystick e eis que na hora exatinha está começando um dos seus programas favoritos. Sua mãe te manda por blusa (porque mãe sempre acerta a previsão do tempo ) e no bolso esquerdo tem uma graninha esquecida: felicidade instantânea. Você se sente rico e no direito de torrar tudo em sorvete e chiclete ou o que a sua idade permitir!
O Guminha já viveu isso tudo aí. Mas nada se compara ao álbum da Copa do Mundo.
Vamos esclarecer algumas coisas antes:
* Essa história acontece num tempo em que não tínhamos internet. Sim, isso aconteceu e o Guminha sobreviveu para contar.
*Por não ter internet, não tinha como se conectar com outros colecionadores de figurinhas e trocá-las com garotos que moram bem longe de gente e a gente nem conhece de olhar no olho.
*Também não dava para mandar uma cartinha para a editora do álbum e pedir as que faltam.
Por essas razões, completar um álbum era uma missão muito, muito, muito difícil. Muito!
O tio Marcelo deu ao Guminha um álbum da Copa do Mundo e logo 5 pacotes de figurinhas. Nesse dia Guminha aprendeu o que significa a palavra VÍCIO. Ele se viciou no tal álbum. Comia figurinha, dormia figurinha, só falava de figurinha!
Ele ganhava umas moedinhas indo na feira para a vizinha, buscando pão para a avó e uma mesadinha do Jorge: tudo ia para a banca de jornais e todo o esforço do menino se convertia em mais uma figurinha colada. Todo mundo sabe que figurinha repetida não completa álbum e o Guminha corria para a pracinha bater bafo e trocar as dele.
O tempo foi passando e o comentário geral é que haviam figurinhas raras, ou seja, começou a corrida do ouro!
-Guminha, a mais difícil é a do Zico, da Copa de 82!
-Nossa Eiras, faltam só 12 figurinhas para mim. A do Zico é uma delas - respondeu Guminha já querendo se chatear.
-É, e vai parar de vender no final do mês.
Parecia uma tarefa de Hércules: dar conta das 12 figurinhas incluindo a rara. Como fazer isso em tão pouco tempo?
Guminha pensou, pensou, pensou e desenhou uma placa: 





Pronto, era um empreendedor, ia trabalhar e ter dinheiro para as figurinhas!
A semana foi passado e o serviço foi aparecendo. A cada nota recebida o menino corria para a banca.
Cada figurinha encontrada era uma alegria sem tamanho! Mas nada da figurinha do Zico...
Além dos trabalhos que geravam a compra de novos pacotes de figurinhas, ele batia bafo com vários grupos diferentes...mas nada de conseguir seu intento! Desistir não fazia parte dos seus planos, mas do jeito que a coisa ia, ele começou a acreditar que a figurinha do Zico não existia. Já estava pensando em bater na casa do Zico em pessoa, mas ele não fazia a menor ideia onde o craque morava.. distraído em seus pensamentos chutou uma  PEDRONA que estava no seu caminho, grande e pontuda, do tipo que dá vontade de dizer um nome bem feio quando a gente bate no dedinho! Estava lá, pulando de dor, quando  ele avistou um pacotinho fechado de figurinhas do álbum! Imediatamente esqueceu a dor do tropicão e correu até pegá-lo, sentiu que alguma coisa de especial tinha naquele pacote para ser encontrado assim, mas ao abri-lo nada do Zico. Não deixava de ser especial, uma vez que trazia uma figurinha também considerada difícil, do Sócrates, mas essa o Guminha já tinha.
Seguiu para casa, ainda pensando um jeito de resolver sua questão. Quem sabe descobrir e fato onde o Zico morava não parecia tão má ideia. E se soubesse e fosse longe? E se ao chegar ele estivesse fora, num jogo e a figurinha fosse rara mesmo para quem tinha seu rosto estampado nela?
Com o álbum embaixo do braço sentou em um banco e começou a cantarolar e assoviar ( isso clareava suas ideias e aflorava sua criatividade).Viajando em ideias mirabolantes , não percebeu que ao seu lado estava o no novo vizinho da rua,o Rafa. Parecia que ele tinha brotado do chão, também  com o álbum de figurinhas na mão.
Começaram a conversar e não demorou nada pra descobrirem que faltava apenas uma figurinha pro seu novo vizinho completar o álbum, o menino queria saber se o Guminha tinha figurinhas pra trocar... 
-Qual falta para completar o seu álbum? não me diga que é o Zico..
-Nãão...Socrates!
-É seu dia de sorte Rafa! - disse o garoto entregando ao novo amigo a figurinha que tinha acabado de encontrar.
O menino no auge da felicidade, aquela felicidade que sentimos bem forte quando nos sentimos com sorte, abraçou o Guminha, que sentia-se feliz em ver alguém completando o álbum com sua ajuda.
-Pelo menos sei que a figurinha que eu procuro existe.
Ao chegar em casa a mãe avisou que o pai, o Jorge havia deixado três pacotinho de figurinhas fechados , com um bilhete:
"Além da mesada, estes pacotes de figurinhas por você ter ajudado a sua mãe direitinho. Espero que você tenha  sorte!"
Sentou-se com álbum pertinho de si. A mesma sensação do pacote da rua o acompanhava. 
Rasgou o primeiro: Platini, Rossi e Dino Zoff.
Tu-do-re-pe-ti-da. Tudo! Ai ai!
Vamos ao segundo: Toninho Cerezo, Roberto Dinamite e...
O menino ficou com medo de gritar muito alto, mas diante da alegria de ver ali, estampado em suas mão o Zico sorrindo para ele, gritou e comemorou como um gol de placa em final de campeonato!
-O Zicoooooooooooooooooooooooooooo!!!!!!!!!!






***Esta história é dedicada a todos que procuraram algo muito raro, tenha sido uma figurinha, um emprego, a amizade verdadeira ou o amor. É dedicado a todos os Guminhas que bateram bafo em pracinhas e quintais e aos admiradores do futebol do Dr Sócrates e de um menino pequeno, que lutou contra sua altura e se fez gigante nos gramados, o Zico, nosso Galinho de Quintino.

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Guminha em "Hora do Banho!!!"


-Guminha vai tomar banho!
-Já vou mãe!
Era a 15ª vez que a dona Maria mandava, sempre tendo a mesma resposta.
É sempre assim: tem uma hora na vida de todos os meninos que banho vira inimigo mortal. Eles enrolam, enrolam e enrolam mais um pouco. Há quem julgue que eles fiquem porquinhos, nojentinhos ou nada disso. Vendo de longe (bem longe, para não sentir o cheirinho), banho significa que a brincadeira acabou. Siginifica nada de por os pés no chão de novo. Significa nada de futebol. Nem pode rolar no chão. Nem pode brincar de pega-pega. Meio que encerra o dia. A dona Maria é bem paciente, mas depois de quase meia hora chamando, ela apelou pra velha tática:
- Guma! Eu vou contar até três! Uuuuuuuuum...
Pronto, o alarme soou. Tava mesmo na hora de largar tudo e ir pro banho. Mas no caminho entre a roupa no cesto e o chuveiro, havia um gibi. Provavelmente o Boca tinha esquecido por ali. 
-Bem legal esse, nunca li.
E ali, peladinho como anjinho de desenho, sentadinho na camiseta suja, o Guminha passou um tempão, lendo e rindo, enquanto a água corria pro ralo, num banho de mentira que só servia para lavar o chão.
-Guminha, você está lavando atrás das orelhas? Tira toda a sujeira debaixo da unha também!
-Sim mãe!
-E sai do banho, você já tá aí faz tempo!
Nossa, e agora? O Guminha largou o gibi, molhou as pontas do cabelo e se vestiu rapidinho. 
Saiu do banheiro cheirando brincadeira da mesma maneira que entrou. Claro e evidente que a mãe percebeu e ia começar  a ficar brava quando a avó, que é mãe com açúcar, interviu.
-A vovó vai te ajudar. Olha, tem essa banheira de alumínio aqui: vou enchê-la de água e você vai tomar banho de verdade. Mas para amolecer essa sujeira toda, melhor você ficar de molho, igual roupa.
-Eu vou ficar parado lá vó?
-Não meu amor. A vovó chupou laranja, brinca com as cascas!
Essa vó era mesmo demais! Quando ela chupava laranjas, cortava em forma de cruzinha e só deixava a casca, que boiava na água.
A água morninha e o olhar da vó de "não adianta que agora você não escapa" mandaram o Guminha de verdade para o banho. E que banho! Aquelas quatro cascas de laranja viraram barcos, esquadras armadas, piratas em combate  e tudo o mais que a imaginação desse menino permitiu. Nem ligou quando a avó, com jeito, esfregou as costas dele e o pescoço, cheios de terra da brincadeira no campinho. Estava num outro lugar, onde só a imaginação daqueles que são meninos para sempre pode ir!



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