Há pessoas que dizemos ter boa sorte. Há outros nomes também, como "ter estrela". "ter o bumbum virado para a Lua", "ter luz"...tem muito nome diferente para dizer a mesma coisa, traduzir momentos em que não esperávamos nadinha e pronto: a gente ganha um presente da vida!
Você tá lá, entediado, arrumando o quarto e pronto: o gibi que você julgava perdido para o nunca mais estava embaixo da cama e você fica feliz com isso. Você tá apertando o controle remoto como se fosse um joystick e eis que na hora exatinha está começando um dos seus programas favoritos. Sua mãe te manda por blusa (porque mãe sempre acerta a previsão do tempo ) e no bolso esquerdo tem uma graninha esquecida: felicidade instantânea. Você se sente rico e no direito de torrar tudo em sorvete e chiclete ou o que a sua idade permitir!
O Guminha já viveu isso tudo aí. Mas nada se compara ao álbum da Copa do Mundo.
Vamos esclarecer algumas coisas antes:
* Essa história acontece num tempo em que não tínhamos internet. Sim, isso aconteceu e o Guminha sobreviveu para contar.
*Por não ter internet, não tinha como se conectar com outros colecionadores de figurinhas e trocá-las com garotos que moram bem longe de gente e a gente nem conhece de olhar no olho.
*Também não dava para mandar uma cartinha para a editora do álbum e pedir as que faltam.
Por essas razões, completar um álbum era uma missão muito, muito, muito difícil. Muito!
O tio Marcelo deu ao Guminha um álbum da Copa do Mundo e logo 5 pacotes de figurinhas. Nesse dia Guminha aprendeu o que significa a palavra VÍCIO. Ele se viciou no tal álbum. Comia figurinha, dormia figurinha, só falava de figurinha!
Ele ganhava umas moedinhas indo na feira para a vizinha, buscando pão para a avó e uma mesadinha do Jorge: tudo ia para a banca de jornais e todo o esforço do menino se convertia em mais uma figurinha colada. Todo mundo sabe que figurinha repetida não completa álbum e o Guminha corria para a pracinha bater bafo e trocar as dele.
O tempo foi passando e o comentário geral é que haviam figurinhas raras, ou seja, começou a corrida do ouro!
-Guminha, a mais difícil é a do Zico, da Copa de 82!
-Nossa Eiras, faltam só 12 figurinhas para mim. A do Zico é uma delas - respondeu Guminha já querendo se chatear.
-É, e vai parar de vender no final do mês.
Parecia uma tarefa de Hércules: dar conta das 12 figurinhas incluindo a rara. Como fazer isso em tão pouco tempo?
Guminha pensou, pensou, pensou e desenhou uma placa:
Pronto, era um empreendedor, ia trabalhar e ter dinheiro para as figurinhas!
A semana foi passado e o serviço foi aparecendo. A cada nota recebida o menino corria para a banca.
Cada figurinha encontrada era uma alegria sem tamanho! Mas nada da figurinha do Zico...
Além dos trabalhos que geravam a compra de novos pacotes de figurinhas, ele batia bafo com vários grupos diferentes...mas nada de conseguir seu intento! Desistir não fazia parte dos seus planos, mas do jeito que a coisa ia, ele começou a acreditar que a figurinha do Zico não existia. Já estava pensando em bater na casa do Zico em pessoa, mas ele não fazia a menor ideia onde o craque morava.. distraído em seus pensamentos chutou uma PEDRONA que estava no seu caminho, grande e pontuda, do tipo que dá vontade de dizer um nome bem feio quando a gente bate no dedinho! Estava lá, pulando de dor, quando ele avistou um pacotinho fechado de figurinhas do álbum! Imediatamente esqueceu a dor do tropicão e correu até pegá-lo, sentiu que alguma coisa de especial tinha naquele pacote para ser encontrado assim, mas ao abri-lo nada do Zico. Não deixava de ser especial, uma vez que trazia uma figurinha também considerada difícil, do Sócrates, mas essa o Guminha já tinha.
Seguiu para casa, ainda pensando um jeito de resolver sua questão. Quem sabe descobrir e fato onde o Zico morava não parecia tão má ideia. E se soubesse e fosse longe? E se ao chegar ele estivesse fora, num jogo e a figurinha fosse rara mesmo para quem tinha seu rosto estampado nela?
Com o álbum embaixo do braço sentou em um banco e começou a cantarolar e assoviar ( isso clareava suas ideias e aflorava sua criatividade).Viajando em ideias mirabolantes , não percebeu que ao seu lado estava o no novo vizinho da rua,o Rafa. Parecia que ele tinha brotado do chão, também com o álbum de figurinhas na mão.
Começaram a conversar e não demorou nada pra descobrirem que faltava apenas uma figurinha pro seu novo vizinho completar o álbum, o menino queria saber se o Guminha tinha figurinhas pra trocar...
-Qual falta para completar o seu álbum? não me diga que é o Zico..
-Nãão...Socrates!
-É seu dia de sorte Rafa! - disse o garoto entregando ao novo amigo a figurinha que tinha acabado de encontrar.
O menino no auge da felicidade, aquela felicidade que sentimos bem forte quando nos sentimos com sorte, abraçou o Guminha, que sentia-se feliz em ver alguém completando o álbum com sua ajuda.
-Pelo menos sei que a figurinha que eu procuro existe.
Ao chegar em casa a mãe avisou que o pai, o Jorge havia deixado três pacotinho de figurinhas fechados , com um bilhete:
"Além da mesada, estes pacotes de figurinhas por você ter ajudado a sua mãe direitinho. Espero que você tenha sorte!"
Sentou-se com álbum pertinho de si. A mesma sensação do pacote da rua o acompanhava.
Rasgou o primeiro: Platini, Rossi e Dino Zoff.
Tu-do-re-pe-ti-da. Tudo! Ai ai!
Vamos ao segundo: Toninho Cerezo, Roberto Dinamite e...
O menino ficou com medo de gritar muito alto, mas diante da alegria de ver ali, estampado em suas mão o Zico sorrindo para ele, gritou e comemorou como um gol de placa em final de campeonato!
-O Zicoooooooooooooooooooooooooooo!!!!!!!!!!
***Esta história é dedicada a todos que procuraram algo muito raro, tenha sido uma figurinha, um emprego, a amizade verdadeira ou o amor. É dedicado a todos os Guminhas que bateram bafo em pracinhas e quintais e aos admiradores do futebol do Dr Sócrates e de um menino pequeno, que lutou contra sua altura e se fez gigante nos gramados, o Zico, nosso Galinho de Quintino.